O painel sobre “A Solicitude Pastoral na Diocese do Algarve” do Encontro das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) canónicas, Centros Sociais Paroquiais e Santas Casas da Misericórdia, que teve lugar no passado dia 21 de maio na Casa de Retiros de São Lourenço do Palmeiral, destacou a importância do apoio social em rede e de levar a esperança às prisões. 

O presidente da Cáritas Diocesana, que participou no painel, apelou também à união daquelas instituições. “É preciso estarmos alinhados para todos constituirmos um grupo sólido”, afirmou.

Carlos de Oliveira referiu que “a Cáritas Diocesana do Algarve é a responsável pela animação pastoral da ação social na diocese”. “A nossa missão fundamental é, junto das paróquias, estimular a criação do serviço da ação social, porque as comunidades paroquiais, os grupos de ação sociocaritativa ou Cáritas Paroquiais ou os vicentinos estão muito mais próximos das situações, resolvem muito mais depressa as situações”, sustentou. 

Aquele responsável referiu que atualmente há uma dezena de Cáritas Paroquiais nas cerca de 80 paróquias algarvias. “É um número muito diminuto”, considerou. Lembrando existirem também os grupos das Conferências de São Vicente de Paulo (vicentinos) e os grupos paroquiais sociocaritativos, defendeu que os grupos sociocaritativos deverão optar por uma de duas possibilidades: “ou são vicentinos ou são Cáritas”. “Porque ser grupo sociocaritativo é uma coisa muito amorfa, não tem sabor, não tem consistência”, considerou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Carlos de Oliveira lembrou que a Cáritas Diocesana procura trabalhar em rede com as Cáritas Paroquiais, com os grupos sociocaritativos e com os vicentinos, mas também com a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) e com outras instituições, para dar sequência aos pedidos que lhe chegam. 

Aquele dirigente lembrou ainda alguns dos principais projetos em que Cáritas algarvia esteve envolvida, como a reconstrução de casas destruídas pelos incêndios ou o apoio às sucessivas vagas de imigrantes.

Carlos de Oliveira explicou ainda que a Cáritas vive dos acordos de cooperação como Estado para o seu Centro Infantil e recolhe fundos para apoio àqueles que a procuram do peditório de rua anual e do peditório do Dia Cáritas nas Eucaristias e das campanhas que levam a cabo. Têm ainda parcerias com o Continente, com a Sarah Trading, com a Fundação Primavera e com o Banco Alimentar Contra a Fome. 

Aquele responsável disse ainda que no Centro Infantil, que acolhe 84 crianças na creche e 75 no pré-escolar, “para além do trabalho pedagógico”, “há muitos anos” que é feito o “despertar da fé para as turmas do quarto e quinto ano”. Temos dois seminaristas que vão de 15 em 15 dias falar sobre Jesus àquelas crianças”, contou. 

A responsável do Setor da Pastoral Prisional da Diocese do Algarve, que também participou no painel, explicou que o trabalho daquele organismo é feito nos três estabelecimentos prisionais do Algarve, em Faro, Olhão e Silves, com capacidades, respetivamente para 120, 80 e 58 reclusos.

Corinna Cappozzo, que antes de vir para o Algarve já tinha trabalhado naquele setor no Patriarcado de Lisboa, explicou que “a equipa diocesana da Pastoral Penitenciária é constituída atualmente por 16 pessoas entre os 22 e os 88 anos”. “Procuramos dar regularmente apoio espiritual aos estabelecimentos de Faro e Olhão e o padre Rafael Rocha é assistente de Silves”, referiu, acrescentando que, para além de trabalharem com os reclusos, trabalham ainda com os seus filhos, esposas e pais. 

“Procuramos manter viva em todos os detidos a esperança, que talvez seja a única coisa que ficou depois de tantas peripécias. Esperança de ainda poder um dia escrever o capítulo mais belo das suas vidas”, prosseguiu, acrescentando que o trabalho passa ainda, “entre a portaria e a sala de visitas”, pelo contacto com “educadores, assistentes sociais, professores ou juristas que estão esmagados debaixo de um mar de trabalho, desenganados e que geralmente já não acreditam na hipótese do arrependimento”. A somar a estes também os guardas prisionais, “muitas vezes esgotados pela contínua tensão, aparentemente duros e até cínicos”. “Às vezes gozam connosco, com o nosso empenho resiliente e regular”, contou, acrescentando: “algum deles declara abertamente que é absolutamente inútil apresentarmo-nos ali, estar com pessoas tão enraizadas, às vezes desde a infância, no mundo da mentira e do crime”.

Mas Corinna Cappozzo testemunhou também haver aspetos positivos, como o de um detido de 53 anos que manifestou vontade em ser batizado. “Iniciou a preparação e, quando foi transferido para outro estabelecimento, combinámos com o padre que lá faz assistência espiritual para continuar esse percurso”, contou, acrescentando o de um ex-recluso que contactou um membro da equipa. “Estava em liberdade e queria enviar um abraço a todos nós. Um sinal de gratidão inesperado”, contou, explicando que o gesto veio acompanhado de “duas grandes caixas de laranjas da sua propriedade”. “Queria oferecê-las a quem precisasse. Indicámos o Centro Sociocaritativo de São Pedro, que estava mesmo a precisar de fruta para as novas famílias carenciadas. Levou não duas, mas quatro grandes caixas de fruta e pediu para guardarem as guardarem para continuar com essas doações até hoje”, desenvolveu.

Aquela responsável referiu ainda um guarda em Faro, que ao interagir com os agentes da pastoral prisional lhes disse: “Há muito tempo que não vou à igreja. Até gostaria de batizar o meu filho, tenho de tratar disso”. Corinna Cappozzo contou também que o do adjunto do diretor dos estabelecimentos de Faro e Olhão quis completar a iniciação cristã. “Tocado positivamente pela nossa presença semanal, começou a questionar-se, quis ser crismado, participa na catequese de adultos e connosco implementou o Curso Alpha na prisão”, relatou.

A responsável do Setor Diocesano da Pastoral Prisional referiu algumas das principais iniciativas daquele organismo como o “workshop de poesia e desenho, do qual nasceu uma exposição itinerante em diferentes igrejas em Faro, Loulé e Ferreiras”, cujo eco chegou até ao Papa e motivou uma resposta dele, ou o recital ‘Tutti Fratelli’ com enredo artístico inspirado em Martin Luther King, Gandhi, Madre Teresa e Papa Francisco, com envolvimento até do diretor do Teatro Municipal de Faro, ou a celebração de preparação para o último Natal, ainda no âmbito do Jubileu 2025.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Aquela agente da Pastoral Prisional lembrou que o Ano Santo motivou a participação no Jubileu dos Reclusos em Roma e que um membro da equipa integrou o contingente nacional, tendo captado imagens da passagem da Porta Santa para proporcionar a experiência com equipamento de realidade virtual aos detidos.  

Além das celebrações de Natal e Páscoa, Corinna Cappozzo destacou também uma celebração ecuménica pela paz. “Noutra ocasião, para celebrar Nossa Senhora de Fátima, realizou-se uma celebração ecuménica e interreligiosa com um padre ortodoxo da Igreja russa e um representante muçulmano”, acrescentou, lembrando ainda celebrações traduzidas “também em árabe para ir ao encontro dos reclusos marroquinos”.

O painel contou ainda com a participação do diácono Rogério Egídio, assistente do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência; de Sandra Moreira, do Setor Diocesano da Pastoral do Turismo; e de Armindo Vicente, presidente do Secretariado Regional da União das Misericórdias Portuguesas.