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1 – Toda a missão de Cristo encontra o seu pleno cumprimento no mistério da Páscoa. Aí, antes da ressurreição, a «Palavra» é o silêncio! O Verbo «emudece» e torna-se «silêncio de morte». Ele disse tudo até se calar sobre a cruz e nada reteve do que tinha recebido do Pai para nos comunicar. Como muito bem escreveu São Máximo, em «a vida de Maria»: «Aquele que é a Palavra do Pai, e que fez toda a criatura que fala, está sem palavra; sem vida estão os olhos apagados daquele a cuja palavra e aceno se move tudo o que tem vida».

Mas, apesar dos olhos apagados, e mesmo sem proferir palavras com os lábios, Ele fala do alto da cruz e interpela a humanidade inteira. Aquela crucifixão e morte foram as últimas palavras que Deus proferiu servindo-se da visibilidade do Corpo de seu Filho, agora feito cadáver. Está ali o sinal mais expressivo do amor de Deus Pai que não poupou o seu Filho Unigénito, para, por meio dele, resgatar todo o homem pecador; sem dizer qualquer palavra, mas falando mais alto que todas as palavras proferidas. Deus fala, apontando para a cruz que foi o preço do sangue redentor de seu divino Filho, derramado em expiação dos nossos pecados. O justo morreu pelo pecador! Não tendo pecado, imolou-se pelos pecadores e rasgou, na cruz, a acta da nossa condenação. Graças à «Palavra da cruz», todos ficámos livres e salvos!

2 – E Deus Pai, afinal, também falou e falou alto, quando ressuscitou Jesus. Nesse gesto de amor, Deus disse que é Senhor da morte e da vida; que o seu poder é superior ao poder de todos os homens unidos em conluio para condenar os justos. Deus falou mais alto que os poderes de todas as autoridades que prepararam e decidiram a sua condenação. Deus arrancou a pedra do túmulo e faz sair, glorioso, aquele a quem tinham dado a morte; e os guardas, «vigilantes», de nada se aperceberam. O que fora morto está vivo para sempre, e possui uma vida que nenhuma força terrena poderá destruir. Ó morte, onde está a tua vitória?

Ao fazer ressuscitar Jesus, o Pai falou, por Ele como até então nunca tinha falado. A Palavra, agora, não é o «sinal» de Deus Criador que fala pela natureza; não é também exercida pela mediação de qualquer criatura, mesmo que tal criatura fosse um «profeta» ou um «patriarca»; a palavra, agora proferida no silêncio da ressurreição, nem sequer é igual às palavras que Jesus dissera durante a sua vida mortal. Ela é a confirmação de tudo o que Jesus dissera e fizera, durante a sua passagem mortal sobre esta terra. Num só gesto, o da ressurreição, Deus diz-nos que aprova Jesus, que o reconhece como seu Filho; e testifica que todas as palavras e gestos terrenos de Jesus eram verdadeiros e conformes à sua divina vontade, tal como o Verbo feito homem o dissera repetidamente. Ressuscitando Jesus, Deus aprovou-O em tudo o que Ele disse e fez, pois não poderia glorificar um Crucificado se Ele não merecesse ser glorificado, para que todo o mundo soubesse que Jesus, a Quem crucificaram, é verdadeiramente Filho e Palavra de Deus.

D. Manuel Madureira Dias
*Bispo emérito do Algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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