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1 – O mistério da Páscoa é, no dizer de Bento XVI, «o coração da Cristologia da Palavra».

São Paulo, ao descrever o mistério da morte e ressurreição de Jesus, diz-nos que Ele «morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras e que ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras» (Cf. 1Cor. 15,3-4), ou seja, coloca este mistério central da fé cristã em relação íntima com todo o Antigo Testamento, como se quisesse dizer-nos: as Palavras da Escritura têm o seu cumprimento no mistério pascal de Cristo; ou, dito de outro modo: em Cristo cumpre-se a Escritura que tem como objectivo primário apontar para Ele e para o seu mistério. Nele, pois, está condensada toda a Palavra de Deus, ou não fora Jesus o Verbo eterno do Pai que se fez palavra humana perceptível às nossas capacidades limitadas!

Se usássemos uma comparação, muito cara ao nosso Santo Padre, poderíamos dizer: Deus tem muitos modos de se comunicar, mas comunica, de modo especial e único, por seu Filho. Se a variedade dos modos de falar usados por Deus podem comparar-se a uma partitura musical, que contém o papel de cada um dos instrumentos de uma orquestra, o modo como Deus nos fala, em seu Filho, é o «solo» da mesma «sinfonia». «O Filho do Homem compendia em Si mesmo a terra e o céu, a criação e o Criador, a carne e o Espírito. É o centro do Universo e da História, porque nele se unem, sem se confundir, o Autor e a sua obra» (Bento XVI, Homilia de 6 de Janeiro de 2009).

2 – Jesus Cristo é, portanto, segundo a Igreja crê, a «Palavra definitiva de Deus». Ou seja, em Jesus Cristo encontramos o sentido definitivo de todas as coisas, sejam elas fruto da criação ou da história. Não podemos esperar nenhuma outra revelação pública após a revelação de Deus feita em Cristo. Ele é o ponto mais alto da Revelação divina, o cumprimento de todas as promessas de Deus e o Mediador único entre Deus e os seres humanos. Ao dar-nos o seu Filho, Deus deu-nos tudo de uma só vez, nesta Palavra única, e já não tem mais nada para nos dizer (Cf. Bento XVI, A Palavra do Senhor, nº 14).

Não podemos, por conseguinte, pretender que Deus comunique alguma coisa por fora do que nos disse por seu Filho. Pode acontecer que alguns de nós ainda não tenhamos descoberto, em Cristo, o que Deus já nos disse por meio dele; mas, aí, a deficiência reside na nossa capacidade receptiva e não na «emissão» de Deus que já nos disse tudo o que tinha para nos dizer.

É por esta razão que a Igreja sabe distinguir entre Revelação pública e «revelações privadas». Estas poderão ajudar a viver aquela, em certas circunstâncias históricas, mas nada lhe acrescentam, para além do que Deus já nos disse por meio de seu Filho Jesus. Ele é, de facto, a plenitude da Revelação.

Manuel Madureira Dias,
*Bispo Emérito do Algarve
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