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1 – A Palavra de Deus, como revelação pública, é, garantidamente, verdadeira, porque, segundo o sentir das Escrituras, a Palavra diz quem é aquele que a profere, e, no caso da Revelação pública, quem a diz é Deus, a Verdade em pessoa. E Deus, que proferiu a sua palavra de muitos modos, nos tempos últimos, pronunciou-a por seu Filho Jesus que um dia teve a coragem sincera de dizer de si mesmo: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo.14,6). Portanto, e pelo facto de Deus, em pessoa, nos ter dirigido a sua própria palavra, esta merece a nossa adesão de inteligência, de afecto e de vontade, ou seja, devemos aceitá-la e aderir a ela pela Fé. que, sendo efectivamente, um dom de Deus se torna uma resposta humana aos desafios que a palavra de Deus nos faz. Aceitar os conteúdos da palavra, ajustar-se a ela e vivê-la é responder, na fé, ao que Deus nos diz, quando nos fala.

A Revelação pública exige a nossa fé, porque, nela, nos fala o próprio Deus, por meio de palavras humanas e pela mediação da comunidade viva da Igreja. Vale a pena deixar aqui, a propósito, esta bela síntese do Concílio Vaticano segundo: «A Deus que revela é devida a obediência da fé; pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo a Deus Revelador o obséquio pleno da sua inteligência e da sua vontade, e prestando voluntário assentimento à sua Revelação». (DV5).

2 – Estas exigências de fé, em relação à Revelação pública, não se aplicam àquelas revelações acontecidas no decurso dos tempos a algumas pessoas particulares. Estas, como diz o próprio adjectivo qualificativo, são revelações particulares, para distinguir da única Revelação pública que parte de Deus e chega até nós pelas vias que só Deus escolhe. Por isso, não devemos dar crédito a todas as possíveis revelações particulares. O grande critério sobre a verdade destas revelações consiste na sua orientação para o próprio Cristo, plenitude da Revelação divina. Se, porventura, uma revelação particular se afastar deste critério, certamente não vem do Espírito Santo.

Mas, a referência a este critério não nos dá, automaticamente, a certeza de que determinada «revelação» venha de Deus. De facto, muitas vezes, nesta matéria, invoca-se o nome de Deus em vão, com o intuito de fazer passar, «por lebre», aquilo que não passa de «gato». Daqui, a grande prudência da Igreja, quando tem de discernir sobre a verdade de algum acontecimento particular, pretensamente, revelador das coisas de Deus.

Uma revelação particular, quando autêntica, pode ajudar a fé; e pode manifestar-se credível, enquanto orienta para a única revelação pública. Nunca poderá conter algo que contradiga a fé e os bons costumes. Mas, o juiz definitivo do assentimento a dar a tais revelações, não se pode impor por si; carece do «aval» da Hierarquia da Igreja à qual está confiada a guarda autêntica da verdade revelada e o discernimento das coisas de Deus.

D. Manuel Madureira Dias,
*Bispo Emérito do Algarve
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