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1 – A "Palavra de Deus" exprime-se por meio de palavras humanas. Enquanto "Palavra de Deus" revela o que Deus é; mas, enquanto se expressa por palavras humanas, torna-se acessível aos homens. É um pouco como o mistério da Encarnação do Filho de Deus: Ele é divino, pois vem da parte do Pai pela intervenção do Espírito Santo, mas dá-se a conhecer através da humanidade que assumiu no seio de Maria. Assim é a Palavra: ela é divina, pois exprime o que Deus nos quer dizer; mas, é humana, pois, se o não fosse, não estaria ao alcance da nossa capacidade humana. Deste modo, temos acesso à "Palavra divina", através de palavras humanas, próprias das mais diversas literaturas de todos os povos.

Quando os "Livros sagrados" foram escritos, não foi Deus, em pessoa, que os escreveu; foram homens dotados de qualidades, mais ou menos adaptadas à missão de escritores de coisas santas. Estes autores escreveram, cada um segundo o seu estilo próprio, segundo a linguagem e cultura do seu tempo, tendo em vista objectivos determinados, ao escrever determinados textos. Assim, alguns deles são de carácter histórico, outros são de estilo mais didáctico, outros ainda com características poéticas, sapienciais, como em qualquer literatura de qualquer povo. Tais autores humanos foram, por assim dizer, a "humanidade de empréstimo" de que Deus se serviu, para fazer chegar até nós, de modo que nos fosse acessível, a sua própria Palavra. E, aqui, entra o mistério da inspiração divina, ou seja, a intervenção de Deus por meio do seu Espírito Santo que actua, no espírito de seres humanos, para que estes escrevam o que Deus quer, e só o que Ele quer que chegue ao conhecimento e à vida dos homens, por meio da Palavra escrita.

2 – A intervenção do Espírito Santo, no acto da escritura dos "Livros sagrados", é o grande "acréscimo" da literatura bíblica, no seu confronto com as outras literaturas. É essa presença actuante de Deus que marca a diferença entre um livro vulgar e um livro "inspirado".

Para se escrever um livro é preciso ter alguns dotes humanos, ter conhecimento dos conteúdos que se pretenda comunicar aos leitores e alguma "inspiração" para dizer bem o que se pretende comunicar. Mas tudo isto está dentro da esfera do humano.

Para escrever um livro da Bíblia, o Autor de um determinado texto precisou de tudo isso, porque, pelo facto de Deus o inspirar, não deixou de ser o que é. Todavia, isso não bastou. Foi preciso que o Espírito Santo actuasse sobre ele, para lhe dar o conhecimento e o sentido do que Deus quis fazer passar por meio daquela literatura humana.

Ao referir-se à Encarnação do Verbo eterno do Pai, João diz-nos que o Verbo, que era Deus, desde o princípio, se fez homem, em determinado momento da história (Cf.Jo.1,1.14). E S. Mateus diz-nos que esse Verbo se fez homem no seio de Maria de Nazaré como obra do Espírito Santo. Este mistério da Encarnação engloba todos os "ingredientes" que entram no mistério das Escrituras como Palavra de Deus. De facto, o "Verbo" (a Palavra divina) existe desde sempre, como Deus; vem ao encontro da humanidade, fazendo-se humano, para se tornar acessível aos humanos; isso aconteceu com o contributo humano de Maria e a intervenção divina do Espírito. De modo semelhante, a Palavra divina da Escritura chegou até nós com o contributo humano dos escritores "sagrados" e a intervenção divina do Espírito que os inspirou.

D. Manuel Madureira Dias,
*bispo emérito do Algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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