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1 – Porque o Espírito Santo intervém na feitura das Sagradas Escrituras, as palavras da Bíblia, embora sendo palavras humanas, transmitem conteúdos divinos, ou seja, dizem-nos, da parte de Deus, o que Ele quer dizer-nos. Porém essa riqueza divina que Deus nos quer comunicar só poderá ser captada por nós, pela acção do mesmo Espírito Santo que inspirou os escritores sagrados. Ao lermos a Escritura Santa, precisamos de renovar e consciencializar que, somente, o mesmo Espírito Santo, que fez encarnar o Filho de Deus e que inspirou os Livros Sagrados, pode dar-nos a conhecer os mistérios escondidos sob as palavras humanas que a nossa inteligência e o nosso coração pretendem penetrar. Há, sem dúvida, um esforço humano a fazer para entendermos o significado dos textos bíblicos que os seus autores humanos quiseram expressar, quando os produziram. Mas, se nos limitarmos a entender os textos da Escritura como quem entende uns outros textos de uma outra literatura qualquer, dificilmente Deus passa por aí. Quem conhece o significado profundo dos escritos da Bíblia é o Espírito Santo que os inspirou e nos dá a conhecer.

Há, pois, uma conclusão óbvia a tirar destas considerações: quando lemos a Sagrada Escritura, devemos criar à volta de nós e no nosso interior, um clima favorável, que nos disponha a acolher e a abraçar o que o Espírito tem para nos dizer no mais profundo de nós mesmos. Neste sentido, merece a pena, registar aqui uma oração muito antiga: «Mandai o vosso Espírito Santo Paráclito às nossas almas e fazei-nos compreender as Escrituras por Ele inspiradas; e concedei-me interpretá-las de maneira digna, para que os fiéis delas tirem proveito».

2 – Quando se atribui ao Espírito Santo uma relação tão íntima com Ele, não se pretende excluir o papel do Pai e do Filho em todo este mistério. Pelo contrário.

Com efeito, tudo o que diz respeito à Revelação divina tem o seu início, a sua origem e a sua fonte em Deus Pai. Foi pela Palavra do Pai que foram feitos os céus (Salmo 33,6); É Ele quem faz resplandecer a sua glória reflectida na face humana de Cristo (Cf.2Cor.4,6).

Deus Pai, porém, para se fazer mais próximo de todos os homens, fez que o seu Verbo eterno (Palavra eterna) se fizesse Homem, para nele e por ele, fazer chegar até nós o ponto mais alto da Revelação. E é no Filho, com o dom do Espírito Santo, que a Revelação do que Deus tem para nos dizer, atinge o seu cume. As promessas de Deus cumprem-se todas em Jesus; em Jesus temos acesso ao Pai e possibilidade de encontrar os caminhos que a Ele conduzem, graças à permanente e constante intervenção do Espírito Santo que inspirou as Escrituras. Quando lermos as Sagradas Escrituras, deixemo-nos envolver por este mistério que o nosso Deus quis, por amor puro e gratuito, dar-nos a conhecer, para nele nos envolver.

Não esqueçamos que, perante um mistério tão grande, pouco temos a dizer. Temos muito mais a ouvir; e é no silêncio do coração que Deus nos fala sobre os mistérios que nos quer dar a conhecer.

D. Manuel Madureira Dias,
*bispo emérito do Algarve


O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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