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1 – Assim como existe uma relação muito íntima e próxima entre a Palavra e a Fé; e como a Fé, para ser verdadeira, e não ser uma mera experiência individual, tem de ser aferida constantemente pela fé da comunidade eclesial, a interpretação da Sagrada Escritura só poderá acontecer no âmbito da Igreja, tendo como paradigma o sim de Maria. A pura letra do Evangelho, sem a graça interior da fé, mata, porque a letra, só por si, não dá vida, pois só o Espírito vivifica. Por isso, o lugar da interpretação da Palavra de Deus é a Igreja e o seu verdadeiro intérprete é o Espírito Santo. Não são a «teoria» ou a «lógica» da razão humana, ou a ciência dos homens que servem de critério para essa interpretação; o verdadeiro critério interpretativo da Palavra divina é a vida e a leitura da Igreja. De facto, a Escritura deve interpretar-se com o mesmo espírito com que foi redigida; e os autores sagrados não actuaram como simples indivíduos, mas como pessoas inseridas na comunidade, e exararam por escrito a vida da comunidade e da sua relação com o mundo circundante, segundo a inspiração que lhes vinha do Espírito Santo.

Precisamos, no entanto, do contributo dos estudiosos sérios dos livros bíblicos, e do contributo que algumas ciências podem dar, para uma interpretação mais exacta do significado da Palavra de Deus. Mas, a esses estudiosos, bem como ao Povo de Deus, pede-se que se deixem imbuir da fé da comunidade crente. É que a Palavra de Deus é isso mesmo «Palavra de Deus» e não pode nem deve ser obnubilada pelas habilidades do homem, por muito sábio que seja.

2 – Importa recordar o que nos disse São Jerónimo, o grande homem que dedicou toda a sua vida ao estudo das Letras sagradas. Em verdade, como ele escreveu, nós sozinhos nunca poderemos ler a Escritura. Ela tem demasiadas portas de entrada e será muito difícil, para não dizer impossível, que cada um possa entrar por elas todas ao mesmo tempo. Por isso, a nossa interpretação deverá ter sempre em conta a leitura que dela faz todo o Povo de Deus. Somente desse modo podemos entrar no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer comunicar.

Se a Escritura foi escrita no seio do Povo de Deus, e para o Povo de Deus, sob o impulso do Espírito Santo, então ela há-de ser lida no mesmo contexto em que foi redigida.

Os Livros Sagrados são a alma da Teologia. Há que reconhecer como, nos últimos anos os Teólogos têm cuidado de fundamentar muito mais as suas afirmações teológicas com base não tanto em textos isolados da Escritura, mas no sentido verdadeiramente bíblico que orienta o próprio pensamento teológico. Mas quer os biblistas quer os teólogos, embora dando um considerável contributo para a interpretação da Escritura, ficarão sempre no pórtico de entrada do «templo da Palavra de Deus» se não forem guiados pela Palavra de Deus vivida na Igreja.

A investigação histórica das fontes e das culturas da época da redacção dos livros santos dão uma preciosa ajuda à sua compreensão. Mas, o verdadeiro sentido da fé nos conteúdos da Palavra de Deus estão muito para além dos dados da História, da Arqueologia, da Etnologia ou da Sociologia e de muitas outras ciências auxiliares. E é esse «para além» que é a essência da fé, com que devemos ler a Escritura.

*bispo emérito do Algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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