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Escutar e Viver a Palavra – XV

1 – A nossa insistência na importância cristã do Antigo Testamento pode levar alguns fiéis, menos avisados, a interrogar-se sobre o sentido de algumas passagens bíblicas mais confusas, sobretudo por causa dos valores morais ou sociais que aí se veiculam e parecem estar em discordância com os valores cristãos. De facto, há passagens no Antigo Testamento que, à luz de uma leitura superficial, deslocada do seu contexto e distanciada da luz do Novo Testamento, pode até escandalizar alguns leitores de tais páginas sagradas. Como devemos, então, entender esses textos?

Em primeiro lugar, precisamos de lembrar que a Revelação bíblica radica na história dos homens e não é algo que aconteça por fora dessa história. Quer isto dizer que o desígnio da revelação de Deus vai caminhando e progredindo ao ritmo das culturas, dos acontecimentos e das etapas sucessivas da vida dos homens sobre a face da terra; e adapta-se ao nível da cultura e da moral de épocas muito antigas, das quais vêm ao de cima, costumes e práticas de vida (fraudes, violências, imoralidades) que não condizem com a nossa sensibilidade, nos tempos que correm. Mesmo quando a Bíblia não denuncia essas situações, reprovando-as, lá estão os Profetas a erguer as suas vozes, contra as injustiças, as imoralidades, as fraudes que muitas vezes verificamos existirem no meio de um Povo que Deus escolheu para ser testemunha da sua própria santidade divina: «Sede santos, como Eu, o vosso Senhor, sou santo» (Lv.19,2).

Em segundo lugar, e face a essas páginas mais difíceis, exige-se que nos esclareçamos em maior profundidade sobre o sentido dessas passagens, vistas sempre sob a grande chave hermenêutica, qual é a chave cristológica da leitura de todas as páginas do Antigo Testamento. Nunca se deve desistir de entender melhor aquilo que nos faz confusão, para que, à luz de Cristo, deixe de ser confuso e tenha significado para os que crêem no Messias prometido, Jesus, o Cristo.

2 – Uma maior aproximação dos dois Testamentos, fará resultar necessariamente, uma relação de respeito, de estima e de verdadeiro amor, pelo Povo judeu, ao qual se deve o Antigo Testamento, e consequentemente, pela palavra que nos legaram. Por meio da Bíblia, as nossas relações de cristãos com os judeus são mais íntimas do que com nenhum outro povo: «juntos temos muito em comum. Juntos podemos fazer muito pela paz, pela justiça e por um mundo mais fraterno e mais humano» (João Paulo II a 23 de Março de 2000). Por isso, é muito recomendável um bom diálogo entre cristãos e judeus, capaz de favorecer o conhecimento mútuo, a estima recíproca e a colaboração, mesmo no estudo da Sagrada Escritura.

É óbvio que temos de evitar cair em interpretações «fundamentalistas» que são, quase sempre, subjectivistas e arbitrárias e se fundamentam normalmente numa interpretação que não deixa espaço para a dimensão da fé. A Bíblia é uma prova da providência de encarnação escolhida por Deus como caminho para salvar o mundo. Querer que a Escritura só diga o que soa na palavra ou querer que ela diga o que subjectivamente nos convém, conduz a alguns fundamentalismos de interpretação que importa evitar com todo o cuidado. A verdadeira resposta a uma leitura fundamentalista é a leitura crente das Escrituras.

D. Manuel Madureira Dias

*bispo emérito do Algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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