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1 – Para que a Palavra seja vivida e opere em nós a transformação interior que Deus quer realizar em nós, ao dar-nos a conhecer a sua vontade, não basta escutá-la. O exemplo dos santos, a que nos referimos no último número de «Folha do Domingo», é bem claro: nenhum deles teria sido santo, se não tivesse escutado e vivido, profundamente, a Palavra de Deus. No fundo, a grande questão está no «acolher» ou «não acolher» a Palavra nos seus conteúdos. Já o Evangelista João nos deixou esse registo quando, se referia ao acolhimento dado e recusado ao Verbo de Deus. Ele assim escreveu: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo.1,11-12). Mas não basta acolher a Palavra, individualmente, com toda a subjectividade que isso poderia envolver. A Palavra da Escritura tem um local privilegiado para ser escutada. Esse local é a Igreja, por Cristo fundada. De facto, para que Cristo se tornasse contemporâneo de cada homem e de cada época, deixou-nos a comunidade dos que nele acreditam. Tal comunidade é o seu Corpo, pelo qual Cristo se torna presente, neste mundo, em cada instante da vida sobre a terra. Por isso, a proclamação da Palavra, feita em comunidade, reveste-se de uma riqueza única, porque esse é o modo escolhido por Deus para estar em permanente diálogo com os membros da Igreja, esposa de seu amado Filho.

2 – Se é verdade, que cada membro deve escutar e viver a palavra, para corresponder ao que Deus quer dele, é igualmente verdade que a Igreja é verdadeira «mestra» da escuta e da conformação de vida com o Verbo de Deus que se fez homem e se torna presente, quando a sua palavra é proclamada no interior da comunidade. A palavra pronunciada por Samuel (Cf.1Sam.3,10), quando Deus o chamou para o exercício de uma missão no interior do povo de Deus, é a palavra que a Igreja pronuncia constantemente. Se o não fizesse deixaria de ser fiel ao seu Fundador, porque a vida da Igreja só é vida segundo Deus, se a Igreja escutar e puser em prática o Evangelho que anuncia. Ela recebe de Deus a vida que é chamada a comunicar; pois, quando comunica, não comunica o que é dela, mas o que Deus a encarregou de comunicar. Se ela não viver o Evangelho, não cumprirá cabalmente a sua missão. Só quem escuta verdadeiramente a Palavra de Deus e a põe em prática poderá ser seu anunciador.

Este mistério da Palavra anunciada, escutada e vivida é uma fonte de riqueza tal que não é possível atingir o grau de perfeição que está nos planos de Deus a respeito de cada um de nós, se nos dispensarmos de a escutar, ou de nos deixarmos interpelar por ela, ou de a vivermos. Neste caso faremos parte daqueles a que se refere João no seu Evangelho: «veio para o que erra seu e os seus não o receberam». Mas, se escutarmos e vivermos de harmonia com os desafios da palavra, também faremos parte dos outros a que o Evangelista também se refere: «aos que o receberam, fê-los filhos de Deus».

D. Manuel Madureira Dias
*bispo emérito do Algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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