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1 – A Palavra de Deus é elemento constituinte e integrante da vida espiritual de todos e cada um dos membros da Igreja. Por isso, nas suas relações com Deus, ela deve estar sempre presente, nomeadamente na oração cristã, de que ela é fonte. A sua leitura e escuta dão aos fiéis uma ocasião soberana para estabelecer com Deus um fecundo diálogo orante, segundo aquele pensamento de Santo Agostinho: «Quando lês, é Deus que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus».

Mesmo que alguém faça, a sós, uma leitura da Escritura, essa deverá ser feita sempre em comunhão com toda a comunidade, Povo de Deus, no seio do qual Deus se revelou e quer agora dar a conhecer, a este fiel concreto, o seu projecto universal de amor. É, pois, importante que, diante da Escritura, se tenha consciência de estar em comunhão com toda a Igreja.

Neste contexto, poderá ser útil lembrar uma forma clássica de oração, chamada «lectio divina», ou «leitura orante» que é feita sempre à base da Sagrada Escritura. Esta forma clássica de orar consta de quatro fases: a primeira consta de uma leitura inteligente dum texto bíblico, que deverá ajudar-nos a entender o texto em si mesmo; a segunda, é uma meditação sobre aquilo que se leu, para podermos entender o que nos diz Deus com o conteúdo do texto que foi lido; a terceira é um tempo de diálogo com Deus, no qual falamos com o Senhor, sobre os desafios que a Palavra, lida e meditada, nos fez; a quarta fase é uma espécie de contemplação, resultante do contacto com a Palavra de Deus e a oração que se lhe seguiu, na qual nos interrogamos, em comunhão com Ele, sobre as mudanças de comportamento e as novas atitudes a assumir em nossa vida. Poderíamos acrescentar uma quinta fase, a qual, na prática, é o corolário de tudo isto e que consiste em praticar o amor fraterno em consequência desta oração.

2 – A «lectio» consta, essencialmente, de quatro momentos, como se viu. Mas, para podermos penetrar melhor no sentido de cada um deles, sirvamo-nos da comparação usada por um Cartuxo do século XII que nos fala da Lectio, a partir da sua experiência pessoal. Este monge comparava as fases da oração às etapas por que passam os nossos alimentos antes de se tornarem carne da nossa carne. São ricas e claras as metáforas que ele utiliza para se explicar Assim, à leitura da Palavra corresponde a tomada de alimento: tal como levamos o alimento à boca, lendo a Palavra, metemos em nós o alimento do espírito. «A leitura indaga». Indagar é como que levar o alimento à boca. Se não mastigarmos e não engolirmos, não nos saciamos, ficamos na superfície. Por isso, segue-se «a meditação remói», que corresponde ao mastigar dos alimentos.

À meditação segue-se a «a oração que pede e agradece», saboreando quanto é bom estar em comunhão com Deus. Corresponde ao saborear dos alimentos: Finalmente vem «a contemplação pela qual se faz a experiência de estar em comunhão com Deus, o que, na alimentação corresponderia ao deixar que o organismo absorva e faça um só com a comida recebida.

D. Manuel Madureira Dias
*Bispo emérito do Algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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