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1 – «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo.20,21).

Toda a vida de um «verdadeiro cristão» há-de ser anúncio e testemunho da Palavra em que acredita. A própria palavra nos impele à missão: ela ilumina, purifica, converte. Cabe-nos a tarefa de a servir, iluminando os outros, colocando-os perante a palavra, para que esta os interpele, purifique e converta.

Ora o anúncio da Palavra de Deus tem um conteúdo que Jesus designou como reino de Deus. De facto, quando nos deixamos iluminar e conduzir pela Palavra, Deus vai tomando conta das nossas faculdades, para as colocar ao seu serviço, pois, só quando estamos inteiramente ao serviço de Deus, Ele é verdadeiramente nosso Rei; e nós, membros vivos e livres do seu reino. Tal reino, porém, só se verifica, por inteiro, na Pessoa de Cristo que se submeteu inteiramente à vontade do Pai. Portanto, anunciar o reino de Deus, é anunciar Cristo; viver como membros do reino de Deus é vivermos em Cristo; evangelizar é projectar a luz de Cristo no coração de cada ser humano: na família, na escola, na cultura, no trabalho, no tempo livre, na vida social, económica e polítics de cada lugar e de cada tempo. Nenhuma pessoa que acredite verdadeiramente em Cristo, poderá eximir-se do anúncio e do testemunho da Palavra de Deus.

2 – Porém, para que este anúncio seja feito, com coerência e generosidade, é preciso ter-se deixado cativar, pessoalmente, pela pessoa de Jesus. Um anunciador do Evangelho, seja qual for o seu grau de responsabilidade, no interior da comunidade cristã, precisa de ter-se deixado cativar pelo Evangelho.

Dificilmente poderá entender-se a missão de Profetas da Palavra de Deus, o Bispo ou o Presbítero, quando pregam, se eles próprios não forem apaixonados de Cristo, Palavra do Pai. O ministério da Palavra é uma das maiores responsabilidades daqueles que foram consagrados, pela Ordem, para a anunciar. Mas, tal ministério dificilmente será eficaz, se for exercido, como mera obrigação ou tarefa a desempenhar, para com os outros. Pregar a Palavra de Deus é muito mais a partilha de uma experiência de vida do que uma proclamação de pensamentos ou ideias bonitas e frases estudadas. Os santos, mesmo quando não muito eruditos, foram mais eficazes que os «escribas» conhecedores e cumpridores das regras normativas e literárias. Precisamente, porque eram santos, ou seja, precisamente, porque, antes de testemunhar a palavra, e viveram; e antes de dar a conhecer Cristo aos outros, o amaram. Mas o anúncio da Palavra não é tarefa exclusiva dos consagrados para o exercício desse ministério. Todos, na Igreja, são chamados a dar testemunho de uma vida cristã, harmonizada com o Evangelho. Os «consagrados» a Deus pela profissão religiosa deverão ser «candelabros» de luz cristã, no meio das trevas de um mundo, ofuscado por valores terrenos; os «fiéis leigos», pela sua presença no meio da família e do mundo, hão-de ser «luzeiros» de valores evangélicos, no meio de um mundo paganizado, ou indiferente aos valores do espírito.

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

*BISPO EMÉRITO DO ALGARVE

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