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O cenário onde se desenrola a vida de um cristão, durante a sua existência terrena, é o mundo criado por Deus. Fazer que a palavra divina chegue a todos os seus recantos, é a missão de qualquer cristão, mas, de modo especial, a missão de um cristão leigo. Este, iluminado pela palavra de Deus, revê continuamente a sua própria vida à luz da vontade divina e sente-se envolvido na tarefa de toda a Igreja que é a tarefa primordial da evangelização. Quem escuta, seriamente a palavra, sente o dever de a anunciar. E como havemos de fazer este anúncio?

1 – Antes de mais, sendo veículos de valores que o mundo em que vivemos, ignora, despreza ou combate. Apontemos alguns: perante a superficialidade da vida terrena, um cristão é chamado a dar testemunho do valor de cada momento que passa. À luz de Cristo, cada instante da nossa existência é um dom de Deus que importa aproveitar e "beber sofregamente", partilhando-o com os que não tenham tanta sensibilidade para o saborear. O que cada um de nós fizer ao mais pequeno dos nossos irmãos, Cristo recebe-o como feito a Si. (Cf.25,40.45). Perante a leveza com que assumimos compromissos sérios na vida, a palavra de Deus, pede-nos que assumamos as nossas responsabilidades diante de Deus e perante o próprio mundo com o qual tecemos a nossa existência. Há situações gritantes no nosso mundo que não podem deixar-nos indiferentes: as injustiças, as explorações da pessoa humana, a violação dos direitos de cada um, a corrupção dos inocentes, e tantas outras maldades humanas que nos passam ao lado e não despertam em nós um "grito" de denúncia firme e comprometido. Viver a palavra exige compromisso.

2 – Comecemos pelo compromisso com a justiça.

Quem escuta e quer viver profundamente a apalavra de Deus não só tem de viver com justiça, como deve apregoá-la com a palavra oportuna e um exemplo edificante. No meio de um mundo, onde se praticam tantas injustiças, sobretudo, com os mais pobres e débeis da sociedade, onde estão os clamores dos cristãos, supostamente "justos", evangelicamente falando, a apontar para os valores da justiça?

Mas não basta ser justo, dar testemunho da justiça e fazer o elogio dela. É preciso, em nome do amor dos mais fracos e da dignidade de cada pessoa, denunciar os crimes de injustiça que se cometem contra aqueles que não têm voz para se defenderem nem capacidade para lutar pela justiça a que têm direito. A Palavra de Deus, bem acolhida no coração de um cristão sincero, não pode conviver com ambiguidades, porque comporta em si, sempre e antes de tudo, uma exigência de solidariedade, constitutiva da verdadeira evangelização.

Quem se compromete com o Evangelho, necessariamente, há-de comprometer-se com a justiça. Os que têm fome e sede de justiça serão verdadeiramente saciados por Deus (Cf. Mt.5,6). Mas, não basta parecer justo; é preciso sê-lo: "por fora pareceis justos aos olhos dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniquidade" (Mt.23,28).

D. Manuel Madureira Dias
*bispo emérito do Algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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