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1 – Não há momento algum da vida humana que, segundo o desígnio de Deus, possa ficar por fora das exigências trazidas pela Palavra, quando ela é escutada e vivida, com lealdade e coerência. De facto ninguém, com fé, seja qual for a sua idade, pode «escapar-se» à «espada» da Palavra de Deus que corta até ao mais fundo de nós mesmos. Ricos ou pobres, cultos ou analfabetos, solteiros, casados ou viúvos, doentes ou saudáveis, no trabalho ou no ócio, com trabalho ou no desemprego, todos são «apanhados» pela Palavra, se estiverem abertos ao que ela exige de cada um. «A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo e discerne os sentimentos e as intenções do coração» (He.4,12).

2 – Mas, para que a Palavra produza em nós o seu efeito, à imagem do que acontece com a terra que se abre à riqueza fecunda da chuva (Cf.Is.55,10-11), importa abrir não só os ouvidos, mas, sobretudo, escancarar o coração. Com efeito, sem humildade interior de coração, não é possível acatar e receber, em si, a riqueza que a Palavra comporta; sem sede e fome do próprio Deus, a Palavra, só por si, não sacia; sem simplicidade e pobreza de espírito, não há sensibilidade para as coisas de Deus; sem amor ao Deus que, sendo «amor», se revela através da Palavra, dificilmente Deus poderá trabalhar o coração humano para que sintonize com o projecto de salvação que Ele próprio concebeu. Deus quer que todos os homens sejam salvos, mas não força ninguém a aceitar o caminho da salvação. Abrir-se ao plano de Deus, aceitar a Palavra, identificar-se com o Cristo, Verbo de Deus, que ela contém, é projectar a nossa liberdade na liberdade divina e potenciá-la ao seu grau mais elevado possível.

3 – A Palavra de Deus, escutada, acolhida e vivida revoluciona a nossa vida no que ela tem de mais profundo e dá um dinamismo novo às nossas relações humanas. A nossa relação com Deus passa a ser muito mais orientada pela escuta do que Ele quer de nós, do que pelo que nós desejamos que Ele nos conceda. Deus passa a ser tratado como Pai querido, antes e acima de todas as demais realidades da terra e do céu. E, se assumimos a nossa condição de filhos, nasce, em nós, necessariamente, uma nova relação com os demais seres humanos. Tratamo-nos como irmãos, aprendemos a saber desculpar, perdoar e a ver na necessidade de cada um a necessidade de alguém que «faz parte de nós mesmos». Mas, além destas relações, também se renova a nossa relação connosco mesmos, porque nos descobrimos como obra do amor de Deus e nos tratamos como tais. Somos alguém que não nos pertencemos, porque somos de Deus.

4 – Finalmente, a melhoria e a renovação destas três relações, faz-nos assumir também uma relação nova com a natureza. Deus tudo criou para o homem e responsabilizou-o pelo mundo criado que confiou ao seu cuidado. Ser filho de Deus e irmão dos homens, reclama de nós um grande respeito e cuidado com a natureza que está ao serviço e não ao arbítrio do homem.

D. Manuel Madureira Dias
*bispo emérito do algarve

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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