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1 – A Palavra de Deus, que nos esforçamos por escutar e por viver, comunica-se por meio de palavras, gestos e outros sinais humanos, acessíveis à nossa capacidade perceptiva. Ela é uma palavra «encarnada», à semelhança do «Verbo divino» que, para comunicar as realidades divinas aos seres humanos, se fez homem e usou as palavras e os gestos humanos a fim de que, por eles, tornasse acessíveis aos homens as realidades divinas.

Deus, portanto, comunica connosco por meio do humano, ou seja, por meio dos acontecimentos e das palavras que formam uma cultura e uma determinada época da história; adapta-se às linguagens por nós utilizadas, aos usos e às culturas de cada raça e etnia, de modo a fazer aos corações de cada um o que Ele quiser revelar-lhe. Assim, Deus serve-se da arte humana, da literatura e dos costumes e vida dos povos, para lhes proporcionar um contacto com outro tipo de realidades que ultrapassam as fronteiras do humano, superando-o e transcendendo-o. É um verdadeiro mistério da «encarnação». A roupagem das línguas e culturas humanas são, em relação à Palavra de Deus, um verdadeiro «corolário» do facto de o Verbo se ter feito homem e ter habitado entre nós, como qualquer humano.

Porém, pelo facto de Deus se dar a conhecer por tais meios, não significa que eles tenham, por si, capacidade de atingir, «parâmetros divinos». Se isso acontece, é por uma condescendência divina de diálogo e adaptação de Deus às nossas limitações. O distanciamento entre as potencialidades da nossa linguagem e cultura só é vencido por um dom de Deus que se deixa captar na pobreza das capacidades limitadas dos homens; e, embora transcendendo-os sempre, Deus fala divino pelo humano, potenciando sempre este humano e «plenificando-o».

2 – Se relacionarmos, as culturas humanas, com o fenómeno das religiões, encontraremos, nestas, um valioso património, variadíssimo, com matizes de variegada espécie. Não se pode nem deve, portanto, tratar deste aspecto cultural dos povos, de uma maneira generalizada e abstracta. Há religiões e religiões. Muitas de entre elas têm, como suporte cultural, a própria palavra de Deus; muitas outras, porém, ignoram, desconhecem, ou nem sequer supõem que exista uma Palavra de Deus. Nós, contudo, que temos fé em Deus e na sua Palavra e a aceitamos como verdadeira comunicação da vontade divina a nosso respeito, entendemos que Deus quer fazer de todos os povos uma verdadeira família universal, o que, só por si, justifica a promoção de um verdadeiro e sincero diálogo inter-religioso. Um tal diálogo, baseado na lealdade mútua e no respeito pelas diversas sensibilidades religiosas, saberá sempre afirmar as próprias convicções, com clareza e em coerência com o modo próprio de proceder; e com respeito pelos outros e pelas convicções de cada um. Dialogar não é imposição, mas testemunho e proposta, sem desrespeitar os grandes valores que as demais religiões veiculam nas suas doutrinas e cultos. Em todas as confissões religiosas há valores: respeito pela vida, simplicidade, valorização do silêncio, sentido do sagrado, importância dada à família e muitos mais elementos dignos de apreço, nos quais se podem encontrar «verdadeiras sementes de Evangelho». Isto não significa que todas as religiões tenham o mesmo valor, mas que todas têm valores, dignos de respeito e consideração.

Escutar e viver a Palavra de Deus, passa, portanto, pelo cultivo de um grande respeito por todas as pessoas, culturas, etnias e religiões. Sem sincretismos fáceis, que se confundem com confusão de valores distintos, nós que escutamos a Palavra e desejamos vivê-la, somos convidados à aceitação das pessoas, seja qual for a sua religião, dando testemunho da nossa fé e confiança em Deus e na sua Palavra.

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico


D. Manuel Madureira Dias

*bispo emérito do Algarve
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