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Foto © Samuel Mendonça
Foto © Samuel Mendonça

Uma escuteira do Agrupamento 383 de Monchique do Corpo Nacional de Escutas (CNE), psicóloga clínica, vai em missão para a Índia trabalhar num projeto educativo que pretende combater o abuso sexual infantil.

Alice Várzea, de 25 anos, natural de Monchique mas residente em Portimão, vai partir no próximo dia 19 deste mês, através da organização não governamental Sambhali Trust, sedeada em Jodhpur, precisamente a cidade no estado do Rajastão localizada no noroeste do país onde ficará a trabalhar.

Esta ONG trabalha com a casta mais baixa da Índia, a dalit, que inclui os chamados os intocáveis, pessoas consideradas sujas a quem não é permitido relacionar-se com a restante comunidade. “A organização trabalha muito para poder dar-lhes acesso gratuito a educação, porque estas pessoas não podem ir à escola, e para lhes dar um teto. Tem, por isso, uma espécie de abrigo para mulheres que foram postas na rua, assim como também acolhe crianças”, explica Alice Várzea ao Folha do Domingo, lembrando que, não obstante, na Índia, o abuso sexual infantil atingir proporções de um “problema muito grave”, continua a ser “muito comum e muito conhecido”. “Acaba por ser um meio para atingir um fim”, considera, lembrando que muitas famílias introduzem as crianças no mercado de trabalho sexual ou vendem-nas com esse fim para conseguirem rendimentos.

A psicóloga clínica, que também irá alargar o seu trabalho ao meio rural onde existem muitas situações graves, explica que o trabalho no combate ao abuso sexual infantil chamará a atenção e consciencializará as pessoas para a gravidade deste crime. Sendo não só preventivo, abordará também o que fazer, por forma a dar alguma dignidade às vítimas dessa violência. Para além disto, a voluntária, que ficará alojada numa casa da ONG para aqueles voluntários, vai ainda dar apoio nas aulas de inglês que a organização oferece. “Eles fornecem uma base de educação gratuita para tentar mudar a mentalidade das famílias”, relata, acrescentando que o objetivo passa por “fazê-las compreender que a educação pode mudar o seu futuro”.

Alice Várzea explica que o desejo missionário despertou cedo. “Desde sempre senti que alguma coisa me chamava a sair daqui e a poder ajudar outros lá fora no que fosse preciso. Acho que o facto de pertencer ao CNE e de ser escuteira desde os meus 11 anos também desenvolveu muito o meu gosto em poder ajudar o outro e dedicar-me àquilo que é essencial”, considera. “A África e a Índia foram sempre países que me chamaram muito a atenção pelas questões sociais que atravessam, especialmente a Índia. Sentia-me muito impelida a ir e tinha estabelecido na minha cabeça, enquanto projeto pessoal, que quando terminasse o meu curso iria disponibilizar um ano da minha vida, de forma contínua, ao serviço dos outros lá fora”, conta.

A voluntária explica ainda que a preparação para esta missão, embora com o apoio da ONG, foi realizada muito de forma autodidata. “Não fiz uma formação mas fui tentando consciencializar e estudar muito sobre o que se passa na Índia. De forma independente tentei preparar-me o mais possível para aquilo com que me irei deparar, mas não foi uma formação encaminhada por ninguém”, refere, acrescentando que o apoio dos pais tem sido fundamental. “Quando a questão começou a ser abordada por mim, naturalmente que sendo a Índia e dado os riscos que existem, especialmente em termos de terrorismo, foi uma questão que lhes levantou muita insegurança”. “Ao início não estavam muito apoiantes, mas, pouco a pouco, quando perceberam que esta decisão era mesmo tomada de forma muito séria e responsável da minha parte, começaram a aceitar como algo que iria acontecer e que eu queria muito. À medida que comecei a trocar informação direta com o fundador e organizador também foram ficando mais tranquilos. Esta organização preocupa-se com a segurança dos voluntários porque estão à sua responsabilidade e isso foi algo muito significativo para os meus pais”, conta.

Alice Várzea ficará na Índia até dia 20 de março do próximo ano, mas não tenciona terminar a sua viagem de missão nessa altura. A psicóloga clínica tem mesmo já comprado bilhete de avião diretamente da Índia para Moçambique, embora ainda sem visto de permanência no país africano. O desejo é o de prosseguir a sua missão até dezembro de 2016, a partir dessa altura na Diocese de Nacala. “Iria realizar um voluntariado de longa duração, mas neste momento por motivos pessoais de uma das irmãs, a minha ida está a ser reavaliada”, conta, explicando que, inserida numa congregação de irmãs espanholas que está responsável por um centro de saúde, iria apoiar um grupo de crianças subnutridas e também um grupo de mulheres vítimas de violência doméstica, para o qual o apoio de um psicólogo é útil.

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