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Espeleólogos alertam para abandono e vandalização das grutas algarvias

Gruta_espeleologiaO presidente do Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA) alertou hoje para a vandalização e o estado de abandono em que estão parte das mais de 200 grutas existentes no barrocal algarvio.

Restos de fogueiras que tingiram o interior das grutas de negro, inscrições nas paredes, garrafas de vidro partidas, lixo e estalactites e estalagmites partidas são alguns dos vestígios da vandalização visíveis na gruta da Salustreira Menor, na Fonte da Benémola, Loulé, que em tempos acolhia uma comunidade de morcegos, praticamente extinta.

Segundo contou à agência Lusa o espeleólogo João Varela, as grutas algarvias que estão em maior risco de conservação são as da Fonte da Benémola, em Querença, a de Algar dos Mouros, em Salir, que está em risco de derrocada, a da Igrejinha dos Soídos, em Alte (as três no concelho de Loulé) e ainda a gruta de Ibne Amar, em Lagoa.

À entrada para a gruta da Salustreira Menor, no sítio classificado da Fonte da Benémola, João Varela conta que a degradação se intensificou nos últimos 15 anos, dando como exemplo o facto de muitas pessoas partirem pedaços das estalagmites para levarem para casa, iludidas pelo brilho que têm no interior da gruta.

“Chegam ao exterior, veem que já não brilha e jogam fora”, observou, alertando ainda para a retirada de objetos cerâmicos de interesse arqueológico que, no caso das grutas da Benémola, apontam para o período Neolítico.

Aléxis Morgan, técnico da divisão de ambiente da Câmara de Loulé, entidade que integra a comissão diretiva das paisagens protegidas locais, explicou à Lusa que na tentativa proteger as grutas do concelho, em abril se iniciou a colocação de gradeamentos para impedir o acesso de pessoas, mas que permitam que os morcegos regressem ao seu habitat, no caso da Benémola.

O mesmo tipo de gradeamento foi colocado na gruta Algar dos Mouros, na zona protegida da Rocha da Pena, onde os alertas de risco de derrocada não dissuadiam as pessoas de entrar.

Em Albufeira, o Algar do Escarpão, gruta vertical com dois níveis e com um lençol freático ativo, encontra-se também inacessível, mas devido às obras de construção da marina de Albufeira, altura em que “a câmara pegou em toneladas de cargas de areia e colocou em cima da entrada da gruta, obstruindo a entrada”, contou João Varela.

Também a investigadora Cristina Veiga-Pires, da Universidade do Algarve, partilha das preocupações dos espeleólogos, observando que as grutas algarvias um património “pouco conhecido mas que efetivamente está em risco” e alertando para a destruição de património geológico, biológico e arqueológico importante que tem atraído à região cientistas de todo o mundo.

No âmbito de um estudo das variações do clima no Algarve, aquela investigadora participou na reconstrução virtual a três dimensões de grutas algarvias e que poderá servir para mostrar as grutas da região, até as mais inacessíveis, sem a entrada de pessoas e para as sensibilizar para a conservação do património natural.

A direção regional da Cultura do Algarve também está a preparar-se para arrancar com um projeto, em parceria com a Universidade do Algarve que visa a inventariação, a caracterização das grutas da região e a análise do interesse cultural e arqueológico de cada gruta, explicou o arqueólogo Frederico Regala.

“O princípio é conhecer para conseguir proteger”, afirmou o arqueólogo que admitiu que a vandalização das grutas da região é uma preocupação da direção regional do Algarve.

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