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Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo…
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do eléctrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

… »
PASSAGEM DAS HORAS», eng. Álvaro de Campos, 1916)

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Esta memória descritiva refere-se a um projecto Futurista, ideia inicial do engenheiro algarvio Sande Lemos nos anos 50 : o da criação de uma represa e de uma Laguna natural através de um talude com 3,5 Km de comprimento, situado entre o acesso ao “Cais” e a “Ilha de Faro” nascente, e com uma direcção muito precisa; de nordeste a sudoeste.

Essa obra de arquitectura paisagista, e engenhosa imaginação adaptada aos dias de hoje, permitiria uma via pedonal e ciclável de perfil reduzido. O talude é concebido com uma cobertura de terra batida e arborizada, facultando outra ligação mais directa à Ilha de Faro (nascente), e em vez dos actuais 10,5Km de via asfaltada num longo percurso por ocidente. Prevê-se ainda e em forma de remate, outra obra de arte (ponte de madeira) com cerca de 160m, para além de pequenas eclusas e vários conjuntos de “moinhos” de maré (geradores-turbinas submersos para aproveitamento da energia cinética das correntes de água) e, por via da laguna criada (poente).

Esta iniciativa apresenta outra convincente contrapartida à energia de origem fóssil (gás e petróleo).

É também contributo para a limitação da proliferação de muitas estruturas de energia eólica e solar, especialmente no Algarve turístico, com todo o seu ambiente único costeiro (praias), património histórico edificado (vilas e cidades), e de paisagem rústica tradicional (campos e serras), com características muito peculiares. Estas formas de exploração energéticas contemporâneas, (para além da exploração de gás e petróleo), não deveriam ser localmente induzidas no futuro, havendo agora outras propostas alternativas que respeitariam e valorizariam a paisagem natural e arquitectural mas, sobretudo, o panorama geral algarvio.

O antigo ante-projecto do dique previa um acesso automóvel, que foi imaginado por Sande Lemos com uma via asfaltada para carros mas, demasiado ampla, e que seria completada através de uma pioneira bacia hidráulica (Laguna) para piscicultura e, viveirista, entre outras funções mais genéricas. Esta extensa baía panorâmica é agora concebida de forma natural, dedica especial atenção aos valores típicos da região e, nas palavras de outro “engenheiro” algarvio, para “ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira” (A. de Campos).

Desenvolvendo-se a partir dessa engenhosa concepção, este novo Estudo prévio paisagístico é de influência newtoniana, numa relação histórica indirecta com o físico e engenheiro Bento de Moura (séc. XVIII). Este inventor português da época barroca, está também ligado à investigação hidráulica, e também fora patrocinado por D. João V. No seu tempo, focalizou-se no poder invisível da força gravitacional e, exercido pela Lua, com relação às oscilações pendulares das marés.

Este extraordinário efeito “físico”, também foi poetado inúmeras vezes por Fernando Pessoa, muito para além do simples efeito luminista do “luar”, e plasmado em muitos versos pelo “engenheiro” de Tavira, Álvaro de Campos, e o seu maior heterónimo. Através de múltiplas imagens simbólicas, reflexas nas “águas” (pauis) e de um conjunto de alegóricas “praias e ilhas longínquas”, e de “baías” e de “golfos”, numa “extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico” e, insertas na sua magistral e Futurista «ODE MARÍTIMA».

Esta invisível atracção gravitacional e, poder físico entre “dois corpos” celestes é exercido, essencialmente, pelo grande satélite (Lua) do nosso planeta Terra, e de modo maquinal e quase imperceptível mas, consequente, através do efeito pendular no movimento cinético das águas do Mar (marés). Bento de Moura, “o Newton português” teria no seu tempo, demonstrado maquinalmente melhor que ninguém, e Campos – Pessoa, muito depois, poetado mais genialmente.

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« O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó—óóóóóóóóó—óóóóóóóóóóóóóóó

(O vento lá fora).
»
O binómio de Newton», Álvaro de Campos, 1935)

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Vítor Cantinho

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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