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“Eu não tenho nada (…) eu não devo nada”

Padre Miguel Neto

Encarar uma situação má na nossa vida com sentido de humor, normalmente só acontece passado algum tempo de a mesma acontecer. Em muitos casos, é preciso anos para troçarmos de nós mesmos por causa de dinheiro que estupidamente perdemos, ou de negócios onde fomos incrivelmente enganados, ou de inutilidades que compramos, achando que tínhamos na nossa posse a invenção mais fantástica do séc. XXI.

Apesar de os factos remontarem a 2007-2009 ainda não passou tempo suficiente para nos rirmos da situação de Joe Berardo – perdão, Sr. Comendador José Manuel Rodrigues Berardo! Ou então quando nós (não ele) perdermos 980 milhões de euros num negócio que só poucos iluminados neste país percebem, só nos resta rir, porque a desgraça é tanta que “rir é o melhor (neste caso, o único) remédio”…

Ao contrário do que pensamos, este senhor não deu à nossa costa há pouco tempo. Em 1985 foi agraciado com o grau de Comendador pelo Presidente General Ramalho Eanes pelo facto de ser um português (infelizmente para nós) que teve sucesso na diáspora. Na altura era precisamente presidente de um banco com as cores da nossa bandeira na África do Sul. Apesar disso, ou seja, de ter sido “distinguido” como um ilustre natural destas terras lusas, em 1989 afirmou que não voltaria a Portugal (o que infelizmente para nós não se verificou; já nessa altura Joe Berardo não cumpria as garantias que dava e ninguém tomou atenção a isso!). Mas como voltou, em 2004 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. No ano seguinte, foi empossado como Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais alta condecoração, desta vez, de França (os gauleses também não perceberam bem com quem lidavam…).

Em Portugal e com um grande amor à sua pátria e ao seu país, Joe Berardo que não consegue articular uma frase seguida em português correto, porque, tal como eu, tem dislexia (e pensa em inglês, pois recorre palavra a palavra a expressões anglo-saxónicas), possui uma enorme coleção de arte contemporânea que, arrisco-me a escrever, 95% da nossa população não conhece, nem quer conhecer, não percebe, mas sabe que isso nos custa imenso dinheiro. Ao contrário dos outros disléxicos que se esforçam por corrigir essa debilidade, ele sente-se no direito de tratar ministras por “babe”, dizer palavrões em inglês a toda a hora e em todas as situações e, quando confrontado com uma convocatória de uma comissão parlamentar para dar explicações sobre os seus negócios, sente-se à vontade para durante 5h00 gozar com todos nós, por intermédio dos nossos deputados. Joe Berardo é mal-educado, mas como tem uma coleção de arte contemporânea, sustentada, mantida e conservada com dinheiros públicos, pensa que é muito importante.

Nunca tinha visto uma audição parlamentar do princípio ao fim, mas como esta nos vai custar 980 milhões achei, numa noite de insónia, que valia a pena pelo preço do bilhete. Não vale. É sincera e verdadeiramente triste ver alguém que incarna na perfeição o chico-espertismo português retratado pelos nossos clássicos (como o magnífico Eça de Queirós e os seus personagens imortais) gozar com todos nós ao dizer que, apesar de uma associação gerida por ele dever 365 milhões de euros à Caixa Geral de Depósitos (CGD), não tem dividas. É sincera e verdadeiramente triste, quando alguém que é presidente de uma Fundação, que segundo os estatutos é equiparada a uma IPSS sem fins lucrativos, dizer que essa Fundação investiu dinheiro que não era dela, porque tem de sustentar os seus projetos! Quantas IPSS’s neste país vivem em dificuldades financeiras e nem dinheiro têm para a manutenção dos seus serviços e edifícios e o Estado português lhes dificulta a vida limitando-lhes o orçamento que para elas transfere, pelos serviços que prestam? Será que têm que pedir emprestados à CGD, sem garantias verdadeiras, 365 milhões euros para comprar ações de um banco com conhecidos problemas financeiros (algo que se passava com o BCP em 2007 e era do conhecimento público)? Diz um amigo meu que quando devemos 700 mil euros ao banco temos um problema com o banco, mas quando devemos 7 milhões de euros é o banco que tem um problema connosco… E a escala dos problemas aumenta quando o valor da dívida é mais baixo…………

Neste caso, o banco que tem o problema, mas somos todos nós que temos que pagar a divida de Joe Berardo, cerca de 980 milhões de euros a três bancos. O Estado português tem dinheiro para isso? Tem que ter. Não se esqueçam que qualquer banco e a sua estabilidade financeira é muito mais importante do que repor os salários nas várias classes profissionais, congelados há um década, melhorar o Serviço Nacional de Saúde, baixar os combustíveis, melhorar a rede de transportes públicos, etc., etc. O mais importante neste país, nos últimos anos, têm sido os bancos e indivíduos como o Joe Berardo. Afinal ele, pelas ordens e condecorações que recebeu é um exemplo para todos nós, pobres, pequenos e ignorados portugueses. Porque o pobre não tem nada e nada deve.

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