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DE novo Lina Vedes revisita a cidade em "crónicas na 1.ª pessoa". E de novo a autora nos prende nos tempos pretéritos desta cidade que tem muito que nos contar!

E Lina, sem nos enfastiar, pega na objectiva dos irmãos Seita, com sede na rua Batista Lopes e atelier de trabalho, junto ao Coreto, e, num registo de memórias nos traça todos os "comparsas" daquele viver, natural, no jardim Manuel Bivar, como uma célula muito viva, que não nos pode deixar indiferentes, levando-nos aos esconsos onde tudo se esconde e se revigora.

Este novo livro, sendo uma continuidade de "Pedaços d’ontem na cidade de Faro", é retratado numa nova objectiva à distância de décadas… E nesse reviver a cidade se encontra com todo o encanto que nela se perdeu num ciclo natural e simples que nos embevece em sonho perdido e que desejamos por que se perdeu… Talvez, como aquelas estórias contadas em toda a ingenuidade em que mergulhámos na infância, nesse espelho em que a imagem esvaída teima, teima e não temos maneira de sair dela.

Talvez por isso este breve livro nunca se encontra disponível na Biblioteca Municipal de Faro, tal o interesse na leitura. E nisso já experimentei à minha neta mais jovem. E ela me perguntar já acabaste, vózinho?

Longe de considerar estes "Retratos à la minuta" um livro infantil, porque ele (o livro) tem o condão de prender nas suas 164 páginas, distribuídas em 29 capítulos, sem contar com que o Mário Zambujal pretendeu adoçar o sabor, quando o autor dos "Bons Malandros" se saboreia com "os bombons retirados da caixa que Lina Vedes nos estende."

As 42 fotos que ilustram o livro, mostra-nos um documento muito interessante pela novidade de alguma imagens desconhecidas e os espaços reconstruídos em novas imagens (nem sempre aplaudidos)… Temos o exemplo do edifício do antigo banco nacional ultramarino, desde os anos cinquenta, num estilo chalé nova-arte, numa arquitectura muito rara ou única nesse estilo e que em sessenta anos já vem numa nova e terceira arquitectura, em que é impossível entender o seu enquadramento na rua de Santo António.. A foto do café Brasileira, o café da juventude do tempo (anos 50), em que Lina Vedes descreve uma planificação muito pormenorizada do enquadramento do café, em que nada lhe escapa no reviver das nossas memórias. Ainda a chocante imagem do luto, na viatura motorizada dos funerais ricos, ainda a diferença social do carro funerário puxado a cavalos, numa ostentação que o tempo democratizou; mas havia ainda o contraste do carro dos pobres defuntos, com a frente em cruz, empurrada contra vontade da borla, em que o caixão regressava para vestir o próximo cadáver, pela benevolência da Misericórdia.

À professora, à cidadã, à mulher consciente das mudanças que aprendeu com Camões, que isto é sempre tempo de mudança… Com todas estas variantes da vida, deixa-nos um documento ainda vivo, com o cheiro das maresias, com o colorido azul das jacarandás de Maio, com aquilo que conseguimos ver pela neblina dos tempos, e guardá-los para o futuro.

Jeitosas são as fotografias escritas, de Lina Vedes, à la minuta! Capa inspirada é a do Luís Filipe Rosa Santos.

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