Foi ontem à noite apresentado em Tavira, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, o mais recente livro de D. Manuel António dos Santos, bispo emérito de São Tomé e Príncipe, que está a colaborar com a Diocese do Algarve.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A publicação, com edição do autor, intitulada “Poemas escritos com o olhar”, é uma coletânea de poemas. “Foi escrito sem pretensões, já que são poemas que vão surgindo, que eu vou escrevendo e vou guardando e depois, de vez em quando, tiro alguns para fora e nasce um livro. Dei-lhe o título «Poemas escritos com o olhar» porque acho que, para a poesia, o olhar é o sentido através do qual nos apercebemos da realidade”, explicou D. Manuel dos Santos.

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Na publicação, que conta com 143 páginas, o autor escreveu terem sido poemas que nasceram do seu modo de “olhar o mundo, de ir ao encontro da vida, do outro, do mundo”.

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Na sessão de apresentação, o escritor disse haver um fim último na sua poesia. “Há uma coisa que eu procuro sempre, é que a minha poesia seja uma poesia de esperança. A poesia acabava por ser também, no meio daquela situação difícil que se vivia lá em São Tomé, uma maneira de eu afirmar uma mensagem de esperança”, justificou. D. Manuel dos Santos destacou que, para além dos poemas de temas genéricos, há ainda aqueles com referência a África, sobretudo, a São Tomé e Príncipe, onde trabalhou durante 15 anos e meio, e outros dedicados à vida do dia a dia e também à mulher.

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O bispo-poeta explicou também que “quem ler os poemas vai notar que há sempre uma referência ao eterno, ao divino, ao infinito”. “Embora não seja um livro com poemas especificamente religiosos, Deus está sempre presente. A razão da esperança, que acabo por veicular nestes poemas todos, está em Deus”, justificou, acrescentando que a sua “dimensão religiosa, e até vocacional, de olhar o mundo com os olhos da fé está presente nos poemas”.

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O autor lembrou que também já escreveu “Ao Sabor da Vida” (2012), “Momentos de Verde e de Mar” (2012), “Poemas de Vida e de Fé” (2013), “Aqui Onde Estou os Sonhos são Verdes” (2015) e “De que cor são as Palavras?” (2017) e “O que é ser católico?” (2023) e explicou ter sido “uma poetisa famosa de São Tomé”, que teve acesso a alguns dos seus poemas, que “insistiu muito” para que começasse a publicá-los.

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O padre Carlos de Aquino, que assinou o prefácio da obra ontem apresentada, afirmou que “estes «Poemas escritos com o olhar» de D. Manuel dos Santos pulsam com beleza, intensidade e mestria a vida, a vida dita em palavras que resultaram não de simples escuta auditiva, mas numa escuta de alma”. “Porque o poeta, ao contrário do que dizem, não é um inventor de mundos, é antes um arqueólogo paciente do invisível. Sabe que há sinais de eternidade enterrados na poeira dos dias comuns; que cada gesto humano, por mais banal que pareça, traz colado a si um rasto de infinito, uma centelha de algo que o tempo não consegue apagar. Por isso, o poeta cava, árdua e profundamente, não para encontrar respostas, mas liberar a luz que esconde entre os escombros de tudo o que vivemos sem reparar e acolher”, afirmou.

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“Tudo isto podemos contemplar nesta obra em boa hora trazida à luz. Talvez seja, por isso mesmo que estes poemas tanto nos interpelam, porque esta poesia não diz a banalidade, o supérfluo, não procura respostas nem receitas; desperta perguntas, alarga o horizonte do olhar, convida à contemplação, a trazer ao segredo do coração o que se experimenta e encontra. Tudo dito em palavras despojadas, por vezes desconcertantes, outras incómodas, mas sempre luminosas, a lembrar que somos também templos ambulantes e frágeis onde ardem pequenas chamas de sentido”, prosseguiu.

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O bispo do Algarve, também presente na sessão, congratulou o autor pela publicação e partilha da mesma. “Estes poemas podem ser uma boa ajuda para a Quaresma, para este caminho de procurarmos a verdade para a nossa vida e olhar para o mundo que nos rodeia de outra maneira”, afirmou D. Manuel Quintas, considerando ser “difícil não se envolver nestes poemas”.

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