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Folha_domingo_numero1O jornal Folha do Domingo celebra hoje o seu centésimo aniversário, passando a fazer parte desse grupo de cerca de três dezenas de publicações portuguesas (com registo ativo) com mais de um século de vida.

Este periódico surge na sequência da edição quinzenal de um Boletim do Algarve – primeiro órgão oficial da Diocese do Algarve – que, no contexto efervescente da Primeira República, denunciou as ameaças ao clero, como constatou Luís Filipe Marques, da Faculdade de Letras de Lisboa, especialista que analisou a questão religiosa e a Lei da Separação das Igrejas do Estado através daquela publicação editada entre 1910 e 1913.

Fundado a 19 de julho de 2014 com o apoio do bispo do Algarve da altura, D. António Barbosa Leão, pelo então cónego Marcelino Franco, que viria a ser o sucessor daquele prelado, o jornal Folha do Domingo – inicialmente designado como boletim paroquial – aparece com o objetivo de ajudar a propagar a evangelização.

D. Marcelino Franco, fundador de Folha do Domingo
D. Marcelino Franco, fundador de Folha do Domingo

O periódico surge como “complemento” às homilias, sermões e conferências para ajudar no ensino do evangelho. “E como se há-de ministrar este ensino? Pela palavra, falada em homilias, sem sermões, em conferências? Sim, certamente; mas nos tempos que correm, este meio é insuficiente”, explicava a edição inaugural de Folha do Domingo, lembrando que “não é no curto espaço de 15 a 20 minutos, que dura a homilia dominical, que o pároco pode dizer tudo quanto precisa dizer ao seu rebanho”.

O jornal surgia então pensado, particularmente, para os mais afastados da mensagem cristã. “Todos sabem que a palavra de Deus, quando aquecida ao fogo de um coração que se abrasa nas chamas do amor divino, tem um poder assombroso, opera maravilhas, produz, cem por cento, segundo expressão do Evangelho. Mas, que efeito poderá fazer esta mesma palavra, por maior zelo que se ponha em anunciá-la, nas almas daqueles que, por qualquer circunstância, não vão ouvi-la? Para esses, pois, de um modo especial, é escrita esta folha que os seus redatores forcejarão por tornar interessante e atraente pela substância e pela forma”, explicava o primeiro número.

O jornal advertia, contudo, que esses destinatários prioritários não eram exclusivos. “Mesmo para aqueles que frequentam os templos e ouvem muitas vezes com atenção e proveito a palavra de Deus, mesmo para esses esperamos que não será inútil a leitura, que semanalmente lhes vamos proporcionar nas páginas do presente boletim”, explicava a nota de abertura.

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Primeira edição de Folha do Domingo

Ao longo deste século de vida foram diretores do jornal, para além do fundador, o cónego Marcelino Franco (1914-1920), o cónego José dos Ramos Bentes (1920-1928), o padre João dos Santos Silva (1928-1937), o monsenhor Manuel Francisco Pardal (1937-1945), o cónego Carlos Patrício (1945-1990), o cónego Clementino de Brito Pinto (1990-1996), o cónego Joaquim Duarte Nunes (1996-2000) e o diácono Joaquim Mendes Marques (2000-2006), sendo o atual diretor Samuel Mendonça, o primeiro leigo [entenda-se, não clérigo] a ser nomeado para essa função.

A história de Folha do Domingo confunde-se com a da própria Tipografia União, criada primeiramente para imprimir o Boletim do Algarve e cujas portas foram encerradas no final de 2012. A sede do jornal coexistiu com a da gráfica de 1914 a 1963 na rua Tenente Valadim, regressando naquele ano a tipografia, acompanhada pela redação do jornal, às dependências do Paço Episcopal na rua do Município, que só naquela altura fora restituído após a confiscação com outros bens em 1910 no contexto da Implantação da República.

Após o difícil período da Segunda Grande Guerra, em que de acordo com o testemunho do cónego José Cabrita Júnior, houve “carestia e mesmo falta de papel” que ditou a “impossibilidade de renovar os tipos, que fizeram decair a Folha daquele nível a que acostumara os leitores e que não era possível manter”, seguiu-se nos anos 50 a duplicação de páginas e a aposta em novas máquinas que permitiam compor e imprimir não apenas este mas outros periódicos algarvios. A esta época sucedeu o período do offset na década de 90 e a consequente adaptação à atual era digital.

O jornal, que fora fundado como semanário e assim permaneceu durante quase 94 anos, passou em janeiro de 2008 a ser editado quinzenalmente. “Os motivos da decisão prendem-se com razões de ordem financeira”, justificava a primeira edição daquele ano, acrescentando que as “exigências do Estado” com vista à atribuição do Incentivo à Leitura da Imprensa Regional (antigo Porte Pago) ajudaram a agravar a situação. Como consequência desta decisão, o jornal cria em 2010 esta edição online e adere às redes sociais Twitter e Facebook para manter a atualidade informativa, assumindo como a principal esta edição renovada em outubro passado no âmbito desta celebração do centenário.

Com o encerramento da Tipografia União, a edição quinzenal em papel, atualmente de 1492 exemplares, passou a ser impressa no final de 2012 na gráfica do Diário do Minho, em Braga.

Quanto ao futuro, o atual diretor de Folha do Domingo considera no editorial hoje publicado que o mesmo “deve ser olhado com prudência e serenidade mas também com esperança e determinação” e “com muita atenção aos novos códigos que se vão impondo com grande velocidade na contemporaneidade da comunicação”.

No âmbito das comemorações desta efeméride, o bispo do Algarve, D. Manuel Quintas presidirá esta manhã, pelas 9.30h, à eucaristia da dedicação da catedral de Faro, comemorativa do centenário do jornal Folha do Domingo.

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