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Giuseppe Cocco, um Santo dos nossos dias

Jorge Leitão

Foi apenas há alguns dias que nos deixou.

Calma e silenciosamente, com a descrição e a simplicidade com que sempre viveu.

Regressou aos braços do Pai, depois de uma vida intensa, de trabalho e de apostolado.

Ao longo dos noventa e e oito anos da sua vida, não fez mais do que dar-se diariamente aos outros.

Com a intensidade, com o amor, próprios dos que nada reservam para si.

Gastou-se, amorosamente pelos outros, durante toda a sua vida.

Bom filho, bom esposo, bom pai, bom amigo.

Teria defeitos, talvez, mas nunca lhos conheci ao longo de um convívio que roçou as seis décadas.
Homem inteligente, forte e determinado, tinha o Evangelho no coração.

Na fábrica, que geria, pontuava uma imagem de Nossa Senhora, que acompanhava diariamente o seu trabalho e o dos seus colaboradores, que sempre tratou como amigos, como verdadeiros irmãos.

Corria-lhe nas veias o sangue e a cultura italianas, herdadas de uns pais cristãos, que cedo deixaram a sua Sicília natal e se instalaram no nosso país.

Giuseppe Cocco nasceu em Lagos, no já longínquo ano de 1920, período pós-guerra, em que as dificuldades, de toda a ordem, atingiam as nações europeias, e, de uma forma especial, a Itália na sua parte mais meridional.

Regressou à Sicília, com os pais, e aí fez à Instrução Primária.

Retornados a Portugal, aqui se fixou definitivamente a Família (pais e duas irmãs)em Olhão, dedicando-se ao pescado e à sua conservação, com vista ao respectivo transporte à distância.

Iniciaram a sua actividade com Estiva e depois na Indústria Conserveira.

A relativamente numerosa comunidade italiana, que se estabeleceu em Olhão, chegou para fazer Família connosco, numa ligação familiar e industrial, que deu muitos frutos.

Embora se dedicasse com grande intensidade ao trabalho, gerindo efectivamente uma unidade conserveira (desde a compra do peixe até ao seu tratamento em fábrica) Giuseppe Cocco nunca descurou o trabalho social.

Bem pelo contrário, foi a esse trabalho em prol dos mais desfavorecidos, que foi buscar, diariamente, as forças necessárias para levar adiante a sua intensa actividade profissional.

Sempre com um sorriso, sempre disponível, sempre atento às necessidades dos outros.

Dedicou-se ao apoio aos reclusos, através de visitas regulares ao Estabelecimento Prisional.

Falava-lhes, apoiava-os, compreendia-os, dando-lhes todo o apoio, bem como às suas famílias, que também visitava e a quem pedia que visitassem os familiares reclusos, que os ajudassem, que não os abandonassem.

Costumava dizer que um homem caído em desgraça perante a sociedade, nunca poderia resistir, nunca poderia levantar-se não tivesse o apoio da sua família.

As suas palavras eram sempre amigas, de apoio, mostrando que todos somos feitos da mesma massa e que só devido à ajuda de Deus, não caíamos em idêntica situação.

Os assalariados da fábrica consideravam-no profundamente, vendo nele um amigo, uma pessoa disponível para os ajudar em tudo aquilo de que necessitassem.

E assim foi sempre, enquanto manteve a sua actividade industrial, dando especial atenção aos mais débeis, aos mais necessitados, aos que tinham filhos doentes.

Giuseppe Cocco trabalhou também intensamente, na Conferência de São Vicente de Paulo, na Santa Casa da Misericórdia de Olhão, no Celeiro do Amor.

Teve sempre a acompanhá-lo, ao longo da vida, uma esposa que comungava dos mesmos princípios e que sempre esteve a seu lado em todas as obras a que ambos se dedicaram.

A base de todo este bem querer, transmitiram-lha os seus pais, através de uma sólida educação, apoiada na Fé.

Fé, que alicerçada sobre as virtudes humanas de que era possuidor, o catapultou a um plano superior.
Giuseppe Cocco é um verdadeiro Santo dos nossos dias.

Descobriu que a felicidade se consegue vivendo para os outros, gastando-se diariamente em função dos outros.

Ensinou-nos a todos, os que tivemos o privilégio de com ele privar, que a nossa verdadeira Missão neste mundo, consiste em fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance para aumentar a felicidade dos que nos rodeiam.

Deus transmitiu-lhe o segredo da Eternidade.

O seu exemplo de Homem Bom permanecerá para sempre entre todos nós.

Oxalá estejamos sempre à altura do seu testemunho.

Giuseppe Cocco vive actualmente a Alegria Eterna da presença de Deus.

É mais um amigo com que contamos no Céu, que intercede sempre por nós junto do Pai e a quem num dia, quiçá não muito longínquo, nos juntaremos.

Jorge Leitão

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