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PORTUGAL vai esquecendo os grandes homens que o fizeram pela grandeza das suas obras, pela firmeza das suas convicções, pelas motivações que nos levaram ao respeito na construção e na defesa do país que somos, no melhor sentido…

Alexandre Herculano (de Carvalho Araújo) nasceu há dois séculos, em Lisboa, 28/03/1810. Nunca foi pai biológico, sendo protector e pai adoptivo.

Muito jovem entrou nos círculos culturais de Lisboa e Porto – Costa Ferreira traça-lhe o retrato: Era um mocinho sisudo e arrebatado, de cabelos castanhos e olhos azuis, não muito alto, tipo escocês. Frequentou os serões da marquesa de Alorna. Ainda conheceu o Cardeal Saraiva que o incitou às letras. Como o descreveu David Mourão Ferreira.

Herculano foi o maior historiador do seu século, o XIX. Como homem político conheceu todas as amarguras de uma época extremamente conturbada: preso, exilado. Chegou a deputado do reino. Alheou-se fundamentalmente da política militante. Repugnou-se pelos actos politiqueiros, deixando ainda, como representante da Câmara dos Deputados obra importante nas reformas da Instrução: Conservatório, Escola Politécnica, o Casamento Civil, etc., que iremos encontrar nos seus futuros "Opúsculos", (1873 e seguintes).

Aos vinte e nove anos, 1839, o rei-consorte, D. Fernando nomeara-o bibliotecário do palácio da Ajuda. Tem 29 anos. A sua vida futura foi de nomeado para lugares determinantes da cultura e história de Portugal, mas logo demitido pela sua intransigência dos valores que defendia. D. Fernando, um rei muito culto e que o protegia Herculano, bem o entendia. Só que o rei não era governo. O parlamento era decisório.

D. Fernando, que era Director da Academia das Ciências, leva Herculano, que breve é eleito vice-presidente da Academia. Cargo de pouca duração. Mas, por sua iniciativa a Academia empreendera a publicação dos "Portugaliae Monumenta Histórica".

Grande historiador das origens da nação, até ao século XIII, Herculano considerava a expansão portuguesa ultramarina como um processo de decadência. Assim, influi em Antero de Quental e Oliveira Martins, que o admiravam mas não o convenceram do socialismo que professavam e sobre o qual este publicou livros de vulgarização pela primeira vez entre nós (1872 e 1873) conforme Vitorino Nemésio em "Breve Perfil".

Alexandre Herculano tornou-se um mito do Portugal histórico. Todos o queriam visitar no seu retiro de Vale de Lobos, onde o historiador fazia a sua vida de naturalista. Ainda nos apoiando em Nemésio, este deixou escrito: Ía-se a Vale de Lobos visitar ou espreitar Herculano como a Isnaia Poliana, na Rússia, os possessos do fascínio de Tolstói, mesmo o Imperador do Brasil D. Pedro II. Como o padre Rademaker, que escrevia a um amigo: "Fui a Vale de Lobos, mas não vi o Lobo do Vale".

Herculano pedia. Abram as janelas! Quero ver as árvores. Era a morte de um Sócrates historiador, que sente claramente sumir-se na cadeia das gerações. Era o dia 13 de Setembro de 1877.

O que me leva a esta breve homenagem ao grande historiador e homem de grande integridade moral, é, entre tantas, a da posição de defensor do nosso património, em que a nova política parlamentarista da monarquia deixara ao quase total abandono e de vandalismo.

Foi pela sua acção pública e de figura respeitosa de Herculano, que no final do século XIX, e a pela corrente europeia a valorizar o património dos respectivos países, que a acção do defensor da monumental histórica construída, lá fez a política do final do século XIX e início do XX, se reparar pela defesa do mesmo.

Hoje o Algarve tem pouco mais de 20 Monumentos Nacionais. Curiosamente foi o rei D. Manuel II, já com a República a bater-lhe no palácio da Ajuda que pede a classificação das Ruínas de Milreu, o Arco da Vila, a 16 de Junho de 1910, à classificação de Monumentos Nacionais. Ainda nessa levada de 1910 se classifica o Castelo de Castro Marim, as ruínas de Alcalar, de Portimão, a Cruz de Portugal, o Castelo. Ainda as Muralhas de Sagres e a Fortaleza do Cabo de S. Vicente. Em Tavira, no mesmo ano e dia se classificaram o Castelo e a Igreja de Santa Maria.

Reparo que a Estação Romana da Quinta da Abicada, Portimão, seria classificada de Monumento Nacional, em 1940; a Sé de Silves e a Sé Catedral de Faro só serão elevadas à categoria de Monumento Nacional, a meio do século XX. Por esse retard, só um desconhecimento histórico dos serviços nacionais para as classificações, levaram os técnicos a essa ignorância.

Os restantes Monumentos classificados de Nacionais, pelo Algarve, vieram numa segunda volta mais alargada, em 1924.

Foi o grande impulso de Alexandre Herculano, nesse grito responsável, que fez o país reparar de quanto importante era (e é) para o futuro de um país, respeitar o passado. Já o papa Bento XVI, no dia 12 de Maio, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, afirmou na sua autoridade, também cultural: De facto a cultura reflecte hoje uma tensão, que por vezes toma forma de conflito entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem intenção de delinear um futuro.

Aos leitores da “Folha do Domingo”, boas férias. Até Setembro.

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