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(Nota: as palavras em “itálico” são expressões de Fernando Pessoa ou de outra “pessoa”, e seu heterónimo)

«Se a avaliação dos movimentos literários se deve fazer pelo que trazem de novo, não se pode por em dúvida de que o movimento Sensacionista português (Futurismo) é o mais importante da atualidade. (…) Tem só três poetas e tem um precursor inconsciente. Esboçou-o levemente, sem querer, Cesário Verde. Fundou-o Alberto Caeiro, o mestre glorioso e jovem. Tornou-o, logicamente, neoclássico o Dr. Ricardo Reis. Modernizou-o, paroxizou-o _ verdade que desviando-o e desvirtuando-o _ o estranho e intenso poeta que é Álvaro de Campos. Estes  quatro _ estes três nomes são todo o movimento. Mas estes três nomes valem toda uma época literária.

Cada um destes três poetas realiza uma coisa que há muito se andava procurando por essa Europa fora, e em vão. Caeiro criou, de uma vez para sempre, a poesia da Natureza, a verdadeira poesia da Natureza. Ricardo Reis encontrou enfim a fórmula neoclássica. Álvaro de Campos revelou o que todos os futuristas, paroxistas e modernistas vários andam há anos a querer fazer. Cada um destes poetas é supremo no seu género.» Cerca de 1916, Mestre Pessoa e precursor da “Trialéctica” futurista, reafirmaria ainda em inglês; «O sensacionismo (Futurismo) representa a atitude estética em todo o seu esplendor pagão (…) transformei-me numa mera máquina apta a exprimir estados de espírito…» (T. 45 e 46, in «Teoria da Heteronímia», Fernando Cabral Martins e Richard Zenith)

Fernando António Nogueira Pessoa, opondo-se à simples anulação do «eu» marinetiano e niilista, foi o criador artístico da “Heteronímia Futurista”. Também numa excelente crítica artística, e deliberada por dois literatos da “História da Literatura Portuguesa”, os “Heterónimos” são instituídos por António Saraiva e Óscar Lopes como; “uma invenção nova na história da poesia europeia”. Considero o Mestre, e por esse “género” literário, outro fundador do “Futurismo europeu” (“Sensacionismo”, “Interseccionismo” e, ainda muitos outros “ismos” mais).

O capital heterónimo “Álvaro de Campos”, por sua vez, redigiria em “trialéctica” ainda o seguinte; “Em torno do meu mestre Caeiro havia, como se terá depreendido destas páginas, principalmente três pessoas _ o Ricardo Reis, o António Mora e eu. Não faço favor a ninguém, nem a mim, dizendo que éramos, e somos, três indivíduos, absolutamente distintos, pelo menos pelo cérebro, da humanidade corrente e animal. E todos nós três devemos o melhor da alma que hoje temos ao nosso contacto com o meu mestre Caeiro. Todos nós somos outros _ isto é, somos nós mesmos a valer _ desde que fomos passados pelo passador daquela intervenção carnal dos Deuses.” (“A. de C.”, «Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro»)

As influências do “quarto” poeta (“Alberto Caeiro” e, indirectamente Mário de Sá-Carneiro) em pelo menos “Álvaro de Campos” “Futurista”, são também reconhecidas pelo Poeta Fernando Pessoa. Ele próprio (“quinto” elemento) é tratado com neutralidade, e metaforicamente como a parte de “dentro” de “um novelo…”. Esta interpretação de aparência doméstica tradicional é, e a meu ver, outra analogia científica moderna acerca da “partícula de Deus”. Enquadra-se numa antevisão pela electrodinâmica quântica (mecânica dos sistemas atómicos de Albert Einstein), e de forma imaginada como um “centro” sem matéria, ou “ponto” de plena energia, envolvido por um emaranhado de “partículas” ou “cordas” em vibração; os vários “Deuses” (politeísmo) e, sobretudo, através da criação dos seus múltiplos “Heterónimos” em volta do “eu ” (“deus”) que se anula, e “…no rodopio subatómico deste inconcebível universo” (“A. de C.”, T.66 in «Teoria da Heteronímia»). E estão particularmente organizados através de, e pelo menos; “dois poetas” ou sempre por meio de constelações de “três”, “quatro” ou mais “estados” de “alma”, e “pessoas” inventadas numa relação “Trialéctica” sucessiva, (diálogo entre “dois”, três, quatro… “…poetas cada um com quinze ou vinte personalidades”… do “Ultimatum” A. de Campos).

O próprio Poeta seria a tal “quinta” pessoa, tal como hoje e ao fim de cem anos a antevemos como que uma “alma” na peça teatral: «O Marinheiro» (1913). Nessa encenação “proto-surrealista”, e como que de um “sonho” se trata, intervêm “três” irmãs velando outra “quarta” pessoa num caixão (premonitoriamente, a morte de Sá-Carneiro em 1916), e acham-se todas marcadamente fixadas pela estética heteronímica. Os “heterónimos” são, como já se aludiu neste estudo, um recurso estilístico “Futurista”, e considerados como uma “irmandade” mas, neste caso, diferentemente tratadas como “personagens” teatrais. Esta religiosa designação (“irmandade”), encontra-se delineada pelas 3-4 irmãs do espaço cénico estático mas, de um dinâmico quarto “circular” e que as envolve. Ainda em 1913, o Futurista reconfirma-o: “O mais alto grau do sonho é quando, criado um quadro com personagens, vivemos todas elas ao mesmo tempo _ somos todas essas almas conjunta e interactivamente.” Outra “quinta” irmã, é por fim pressentida no “terminus” do “Conto”, e como que de uma multiplicação imagética sucessiva se tratasse. Neste imaginado quadro, é também inserido outro “conto” acerca de “O Marinheiro“, e aventando-o desterrado numa “Ilha”, e como que reinventando uma nova “Pátria”. Sem margens para dúvidas, esta nova alusão metafórica, constitui outra relação religiosa sebástica, e recurso futurista que também perpassa toda a obra literária do Mestre. O “Sebastianismo” é, para Fernando Pessoa, como que outra “religião” eminentemente ligada à literatura portuguesa. Junto ao “politeísmo”, está em total expressão sincrética relacionado ao seu “Christismo”, ao “messianismo” e, ao “Futurismo”.

Outra “religiosa” tríade, “neopagã” mas, contraditoriamente monoteísta e crística também, e acerca da principal heteronímia ; “Caeiro-Reis-Campos”, são todos “poetas” ficcionados ou é ainda os vários “filósofos” inventados pelo Mestre (…,“Mora”, …). E, sem esquecer nunca que; “António Mora é o continuador filosófico de Alberto Caeiro”. E o Poeta “em si” torna-se nulo e, por fim, contraditoriamente “niilista”. Fingidamente, afirma-se; “ninguém”, referência “niilista” mas, com toda a carga simbólica sebástica, pela evocação da principal figura literária e teatral de um “romeiro”… (Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett) Mas, antinomicamente, em que “menos” ou “nada” querem dizer, inversamente, e para o Mestre Pessoa; “Mais” e “Tudo” (R. Zenith). Será que ele próprio, também seria o tal … Este novo conceito acerca do “nada”, é depois amplificado (“Ninguém”), e envolveria não a anulação do conceito de “Deus e da Poesia” (Nietzsche) mas, religiosa e literariamente “o encoberto” “Sebastianismo” messiânico. Fernando Pessoa Futurista, na qualidade de “pessoa Absoluta”, reinventaria outro “deus” em si (“Super-homem”), à frente como “Mestre” de todos os “outros” “discípulos”, e representante de “toda uma época literária”, e como criador dessas múltiplas personalidades: Caeiro-Reis-Campos-Mora-Guedes-Soares- … .

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«São três as maneiras de encarar o dualismo monisticamente: colocar a Realidade em um dos pontos, sendo o outro real mas inferior; colocá-la em um ponto que está fora de qualquer dos dois.»

(António Mora, «O Regressos dos deuses» 1916?)

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«Que cada um seja muitos! (…) Sejamos a Pessoa Absoluta do Plural Incomensurável. Menos que isto é a arte do passado!»

(T. 50, Fernando Pessoa, 1917?, in «Teoria da Heteronímia»)

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«Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.»

(Miguel de Unamuno, in «Solidão»)

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«Todo o homem que há sou Eu. Toda a sociedade está dentro de mim.»

(T.47, Fernando Pessoa, 1916?, in «Teoria da Heteronímia»)

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A anulação do “Passado” foi igual propósito niilista de Filippo Marinetti. Em vibração contraditoriamente futurista mas, também complementar com o “Presente” e o “Futuro”, “Pessoa-Campos” iria proclamar no seu “Manifesto” (“Ultimatum”, 1917) a necessidade de “Um” “artista que sinta por um certo número de Outros, todos differentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro”. “Um” é “ele-próprio”, Mestre Pessoa, em constante vibração “Trialéctica”, com dois-três-quatro ou múltiplos poetas heterónimos mas, amplificando-se por meio do anulamento pessoal e, também através do “Passado”. O “Tempo” em absoluto e “toda uma época literária”, consignam-se no «Heteronimismo pessoano».

(continua)

Vítor Cantinho

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