Inicio | Opinião | “HORAS PASTORAIS”

“HORAS PASTORAIS”

Um saudoso e bom amigo, prematuramente falecido, o Senhor Leonel Horta, falou-me um dia com grande entusiasmo, recordo-me que até os seus olhos brilhavam enquanto falava, de D. Júlio Tavares Rebimbas, Bispo do Algarve. O que esse benemérito empresário farense me disse então, e já lá vão mais de dez anos, a propósito do Senhor D. Júlio, que agora também nos deixou, posso ainda sintetiza-lo nesta expressão que de forma genuína, espontânea e absolutamente desinteressada brotou da sua boca: "Aquilo, sim, é que era um Bispo, um grande Bispo!"

Na altura, fiquei a pensar sobre o que é que quase trinta anos depois de D. Júlio ter deixado o Algarve, poderia estar na origem de uma tão intensa saudade e de uma tão positiva impressão por parte de um cristão leigo em relação ao seu antigo Bispo. A resposta encontrei-a pouco depois, ao folhear o livro "Horas Pastorais" que descobri na Biblioteca do Seminário de S. José, publicado em 1971 pela Tipografia União, onde através de uma compilação de mensagens, homilias e narração de episódios curiosos, (como aquele da visita surpresa a Odeleite, onde foi recebido com os sinos a repicar e aldeia concentrada no adro da igreja, porque uma jovem camponesa o reconheceu no caminho e correu apressadamente à sua frente a avisar toda a gente que o bispo vinha aí) D. Júlio nos dá conta do que foram as primeira horas do seu longo e rico ministério episcopal, primeiras horas que foram vividas "no meio do Tempo e do Povo do Algarve", como ele próprio escreveu em subtítulo.

Chegado ao Algarve, com apenas quarenta e três anos, um jovem bispo, na força da vida, com uma notável experiência pastoral paroquial, como Pároco em Avelãs de Cima, Avelãs de Caminho e Ílhavo e de administração diocesana, como Vigário Geral e Governador da Diocese de Aveiro, D. Júlio tinha todas as condições para desenvolver um grande ministério episcopal, como de facto veio a acontecer. A tudo isso, acresceu ainda uma circunstância excepcionalmente auspiciosa para se iniciar, como ele iniciou no Algarve, uma grande carreira episcopal. É que D. Júlio, eleito Bispo do Algarve em Setembro de 1965, foi directamente para Roma onde tomou parte, na última sessão do II Concílio do Vaticano, acontecimento que o marcou para sempre. Ordenado Bispo no dia 26 de Dezembro de 1965, mal chegou ao Algarve, o seu programa foi aplicar a doutrina conciliar à vida prática da nossa Igreja diocesana, o que por si só constituiu uma grande novidade, numa renovação de métodos e de acção pastoral, num dinamismo e numa criatividade tais, que deixaram marca e saudade em todos os algarvios. Só para dar um pequeno exemplo: o projecto de construção do Centro Social e Pastoral de Ferragudo, vem do seu tempo. Interrompido com a sua partida em 1972, só muito mais tarde, quando o Algarve voltou a ter um grande e dinâmico Bispo, é que o mesmo foi retomado e concretizado. Por isso, correspondendo ao convite de D. Manuel Madureira Dias, D. Júlio, então Arcebispo – Bispo do Porto, esteve presente, no dia 8 de Janeiro de 1997, em Ferragudo, na inauguração do Centro Pastoral e voltou ao Algarve, já como Bispo emérito, para no dia 3 de Setembro de 2000, participar em Silves, na ordenação episcopal de D. Manuel Neto Quintas.

Eleito Arcebispo de Mitilene, em 11 de Julho de 1972, rumou a Lisboa e entregou a Diocese do Algarve, a Monsenhor Sezinando Oliveira Rosa, que dela veio tomar posse por Procuração do novo Bispo D. Florentino. O último dia da sua presença como Bispo do Algarve, contou-me há uns anos o próprio Monsenhor Sezinando, foi passado a passear por Faro e terminou com um almoço íntimo de despedida na praia de Faro. Chorou na hora da partida, chorou sempre que teve de mudar de Diocese, como confessou numa entrevista que deu a um jornal do Porto: "chorei, chorei sempre que tive que partir", disse, referindo-se à sua vida de Bispo itinerante que começou no Algarve, passou por Lisboa e por Viana do Castelo, onde foi o primeiro Bispo diocesano e terminou na grande Diocese do Porto.

Se D. Júlio chorou ao deixar o Algarve, não é menos verdade que os algarvios ficaram a chorar por ele e jamais o esqueceram, guardando dele uma enorme gratidão e saudade, pelo breve tempo do seu inesquecível serviço episcopal, que "soube a pouco"!

É para a nossa Diocese, uma grande honra, que os anais da história registem na cronologia dos Bispos do Algarve o nome do Senhor D. Júlio Tavares Rebimbas, um dos maiores Bispos portugueses do século vinte e ainda que em 1965 ele tenha sido eleito para Bispo do Algarve, aqui iniciando um singular e notável serviço episcopal. Como São Paulo, também ele, incansável e apostólico pastor da Igreja pode dizer: "Combati o bom combate. Terminei a minha carreira, guardei a fé!

P.S. Exactamente à mesma hora em que se celebravam na Sé Catedral do Porto as exéquias de D. Júlio, decorriam a cerca de dez quilómetros, na Igreja Paroquial de São Salvador de Matosinhos, as exéquias de meu pai. Que ambos descansem em paz.

Verifique também

O mar que vejo da minha janela

Da minha janela vejo o mar. Não o mar calmo e azul do Algarve, o …