A igreja matriz de Vila Real de Santo António celebrou 250 anos de construção e a efeméride foi celebrado no passado dia 13 deste mês, comemorando o 13 de maio de 1776 em que foi aberta ao culto, dia de aniversário do Marquês de Pombal, que a mandou construir, assim como à cidade vilarrealense.

O aniversário da construção da igreja foi assinalado com a celebração da Eucaristia, presidida pelo bispo do Algarve. D. Manuel Quintas referiu-se a um “momento raro e luminoso” da “história comum” da cidade e da paróquia e destacou a “caminhada” que os habitantes e os paroquianos fizeram ao longo dos seus 250 anos. “Esta cidade nasceu de um projeto ousado, de uma visão ampla e de grande coragem política. Foi construída com o olhar voltado para o rio, para o mar, para a fronteira, como quem acredita que o futuro nunca se constrói no medo, mas na esperança, na ousadia”, considerou.

“Neste dia não celebramos apenas pedras, ruas ou datas, celebramos pessoas; celebramos gerações inteiras que aqui viveram, trabalharam, sofreram, amaram e transmitiram a fé; celebramos uma identidade moldada pelo trabalho, pela cultura marítima, pela abertura ao outro, pela confiança em Deus”, prosseguiu, convidando a “três atitudes de ordem espiritual: evocar o passado com gratidão, viver o presente com paixão, sonhar o futuro com ousadia e audácia”.

Relativamente à primeira, lembrou que “um povo sem memória torna-se pobre, sem história, sem identidade” e que “a gratidão é a alma da memória cristã”. “Hoje damos graças pelos fundadores desta cidade, pelas famílias que aqui criaram raízes, pelos pescadores e trabalhadores do comércio e quantos prestaram serviços aos mais diversos níveis, e por tantos sacerdotes e consagrados que aqui anunciaram e testemunharam o Evangelho ao longo destes 250 anos”, sustentou, lembrando “tantas vidas” que “foram batizadas, reconciliadas, abençoadas e entregues a Deus” naquela igreja paroquial, “coração espiritual de Vila Real de Santo António, situada também no coração da cidade”.

D. Manuel Quintas agradeceu também os “momentos difíceis” que aquela terra atravessou: “crises económicas, tempestades, imigração, solidão, pobreza” “porque também nesses momentos o povo encontrou forças para os superar e recomeçar sempre de novo”.

O bispo do Algarve exortou também “a viver o presente com compaixão”. “Não podemos viver apenas com saudade do passado, nostalgia, nem com receios do futuro. Também não podemos acolher o presente como tempo de resignação. Deus continua a agir hoje em cada um de nós e através de nós neste tempo que nos é dado viver. E pede-nos hoje compromisso, responsabilidade e paixão pelo bem comum, pelo bem de todos”, desenvolveu, considerando que a cidade “continua a precisar de homens e mulheres capazes de servir”, “de jovens que não desistam da sua terra”, “de famílias sólidas”, “de uma cultura que promova a dignidade humana”, “de uma economia ao serviço das pessoas e não apenas do lucro”, e “de cristãos que vivam a fé não como tradição vazia, mas como força transformadora da sociedade”.

“Celebrar 250 anos não pode ser apenas recordar o que fomos. Deve ajudar-nos a discernir aquilo que hoje queremos e somos chamados a construir. Por isso, somos convidados a olhar para o futuro, a sonhar o futuro com ousadia e, direi mesmo, com audácia”, defendeu, advertindo que uma “grande tentação” do tempo presente é o “desencanto”. “Há quem diga que já não vale a pena sonhar, que os valores se perderam, que a fé pertence ao passado. Todavia, um cristão nunca pode viver prisioneiro do pessimismo, nem um cristão, nem um cidadão”, contrariou.

D. Manuel Quintas considerou que o futuro de Vila Real de Santo António “não depende apenas das infraestruturas, dos investimentos ou das estatísticas”. “Não podemos descansar nesses dados. Depende sobretudo da qualidade moral e espiritual do seu povo. Depende da capacidade de cada geração transmitir valores. Depende da coragem de permanecer profundamente humanos num tempo que tantas vezes se desumaniza, como verificamos todos os dias. Depende da fé vivida com autenticidade e ousadia”, referiu.

D. Manuel Quintas desejou ainda “que Vila Real de Santo António continue a ser terra de encontro, de cultura, de trabalho digno e de esperança”.

O pároco foi ao encontro do almejo do bispo diocesano, esperando que aquele acontecimento sirva definir o futuro. “Que esta celebração a que preside, e a que tantos se quiseram associar, seja verdadeiramente um sinal não apenas para lembrar o passado, não apenas para um sentimento nostálgico daquilo que esta paróquia já foi, mas sobretudo para todos juntos projetarmos o futuro”, afirmou o padre Tiago Pereira.

O sacerdote considerou que o povo de Vila Real de Santo António “se encontra numa encruzilhada entre uma dinâmica ainda muito tradicional e uma cidade que se encontra em profunda transformação”. “Se há 250 anos o nosso querido Marquês de Pombal percebeu a importância que a Igreja Católica tinha no bem-estar da população que aqui habitava, hoje a pluralidade da oferta religiosa faz com que já não sejamos os únicos, nem, em tantos momentos, os maioritários”, declarou, advertindo que “o cristão não está chamado apenas a salvar a sua alma, mas está chamado também a salvar a sua cultura”.

“Continuamos a ser portadores de uma mensagem que quer ser libertadora e construtora do bem comum. Isso desafia-nos e desafia os nossos queridos autarcas”, prosseguiu, lembrando “tantos homens e mulheres” que ali “experimentaram momentos de alegria e de dor, horas de esperança e de angústia”. “Esses homens e mulheres continuam a caminhar abrigados por estas pedras e por este telhado que com o tempo se vai desgastando”, continuou, acrescentando que “a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia nunca se escusaram a colaborar” com a paróquia “e têm bem presente a consciência da importância que a comunidade cristã” tem na cidade. “Não há bom cristão que não seja um bom cidadão”, observou.

Neste sentido, referiu que “os diversos grupos de catequese e os agrupamentos de escuteiros procuram ser um apoio para as famílias na formação e educação das novas gerações”. “Tudo isto é trabalho em benefício da comunidade, que em muitas circunstâncias merecia ser mais reconhecido por toda a cidade”, disse, considerando a comunidade paroquial como “o lugar mais universal de toda a cidade” onde “cabem todos, todos, todos, independentemente do seu ponto de partida”.

O sacerdote dehoniano lembrou ainda os párocos que o antecederam “e que procuraram ser testemunhas da presença de Jesus” na cidade. “O padre Feliz Vieira Pires aqui os representa a todos e o padre José Rota, na eternidade, pede ao Pai do céu pela missão de todos”, referiu, apresentando ainda “uma palavra especial ao padre Manuel Chícharo, que paroquiou Monte Gordo e Castro Marim”. Lembrou também “a comunidade religiosa dehoniana representada pelo padre José David, que garante a presença da Igreja nos concelhos de Vila Real de Santo António e Castro Marim”, e os ex-párocos cónegos Manuel Oliveira Rodrigues e monsenhor José Pedro Martins, este já falecido, “que tanto marcou” aquela comunidade.

O padre Tiago Pereira invocou igualmente “a presença do cónego Mário de Sousa, do cónego Carlos de Aquino, do diácono Albino Martins e das irmãs Marina e Nélia”, naturais daquela terra. “Os primeiros estão fisicamente connosco. A irmã Nélia, fruto da sua opção, está num convento de clausura no Louriçal, Diocese de Coimbra, mas quis fazer-se presente”, disse ainda.

Para além do serviço do diácono Albino Martins e da concelebração do cónego Mário de Sousa e dos padres dehoninanos Feliz Pires, José David Vieira, Manuel Chícharo, a Eucaristia foi ainda concelebrada pelo provincial da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (dehonianos) em Portugal, o padre João Nélio.


No final da celebração – que contou com a presença dos presidentes da Câmara Municipal, Álvaro Araújo, e da Assembleia Municipal, Francisco Amaral, e da reitora da Universidade do Algarve, Alexandra Teodósio, natural de Vila Real de Santo António – a paróquia homenageou Armindo Barata por “toda a dedicação” há 52 anos ao serviço do coro paroquial.



O pároco pediu ainda às crianças para fazerem a entrega de lembranças daquele acontecimento às entidades presentes.

A programação de celebração dos 250 anos da igreja matriz de Vila Real de Santo António incluiu ainda uma conferência de D. Manuel Clemente no dia 11 de maio e a Eucaristia seguida de procissão de velas em honra de Nossa Senhora de Fátima, no dia seguinte, também presididas pelo patriarca emérito de Lisboa.












