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Jornada Bíblica ajudou cristãos algarvios a interpretar o livro do Apocalipse

© Samuel Mendonça
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A Jornada Bíblica deste ano da Igreja do Algarve ajudou os 227 participantes das diversas paróquias algarvias a perceber melhor a mensagem contida no livro do Apocalipse, o último da Bíblia, deixando claro que o mesmo não pressagia qualquer catástrofe.

A iniciativa, que teve lugar no último sábado no Centro Pastoral e Social da Diocese do Algarve, em Ferragudo, promovida pelo Centro de Estudos e Formação de Leigos do Algarve (CEFLA) da Igreja algarvia, evidenciou que aquele livro da Bíblia pretende mostrar que a história está na mão de Deus que terá a última palavra sobre o mal.

© Samuel Mendonça
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“Deus é mais forte do que o poder do mal. Com a colaboração da comunidade que agora está na terra, o Senhor, um dia, há-de destruir todo o mal e fazer aparecer essa comunhão perfeita entre Deus e os homens nos novos céus e numa nova terra”, frisou o padre Mário de Sousa, assegurando que Deus retomará o seu projeto original descrito em Génesis. “O plano de Deus é o plano das origens que o homem estragou com o pecado, é a comunhão com Ele e a felicidade que não acaba, onde Deus e nós seremos uma coisa só”, afirmou.

O orador da jornada ao longo da sua intervenção, dividida em três partes, deu chaves de leitura para descodificação e entendimento da mensagem contida na obra que considerou “um dos livros mais difíceis da Sagrada Escritura por causa da sua linguagem”.

© Samuel Mendonça
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Começando por explicar que o nome resulta da primeira palavra da obra, o sacerdote lembrou que Apocalipse é uma “palavra grega que deriva do verbo que significa a ação de retirar aquilo que cobre ou esconde, ou seja, do latim: revelar”. O padre Mário de Sousa sustentou, por isso, que Jesus é o “revelador” que dirige as primeiras palavras ao seu servo João, o autor do livro, “alguém que é uma referência para as sete Igrejas da Ásia Menor” (atual Turquia), às quais se destina a obra. “Este João, segundo a tradição, seria o evangelista”, completou, explicando, contudo, que o escritor não seria o apóstolo João, mas um discípulo seu.

O padre Mário de Sousa, especialista no estudo de São João e diretor do CEFLA, destacou que o livro foi escrito para uma Igreja em dificuldades com o império romano, com o paganismo e com o Judaísmo. O conferencista explicou haver historiadores que defendem que João escreve nos finais do século I, durante as perseguições do imperador Domiciano, motivadas pela imposição de que lhe fosse incrementado culto, enquanto outros consideram que o início do livro teria começado a ser escrita por volta do ano 64, no tempo em que Nero era imperador.

© Samuel Mendonça
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“Uma das grandes finalidades do Apocalipse é combater as doutrinas que contaminam o evangelho, repreender as comunidades mornas, mas também elogiar e incentivar as comunidades fiéis e que dão testemunho. A primeira parte, a das chamadas sete cartas, destina-se, sobretudo, a isso”, completou sobre a finalidade do livro que disse ter sido “revelado na experiência eucarística, através da ação do Espírito [Santo] que arrebata João”. “Não é um romance. É um livro para ser lido e escutado na assembleia litúrgica”, complementou.

Referindo-se à “grande figura que representa Jesus”, a do cordeiro – que depois passou para a iconografia cristã –, sublinhou que “a grande experiência espiritual do Apocalipse é a da celebração do mistério pascal de Jesus”. “O que o evangelista quer dizer é que o verdadeiro cordeiro pascal – aquele que faz tornar presente a ação salvífica de Deus na história, aquele que faz a aliança com o seu sangue entre Deus e os homens –, já não é um animal, mas o próprio Filho de Deus”, justificou, destacando que “o autor do livro depende, em grande medida, do Antigo Testamento que conhece de fio a pavio”.

Lembrando que “a linguagem simbólica não é uma novidade na Bíblia” em apontamentos pontuais, evidenciou que a originalidade do Apocalipse é que se trata de uma obra, “toda ela, simbólica”. “A teologia do Apocalipse é uma mensagem assente no símbolo”, frisou, realçando que o livro “não é apenas descritivo” e que, por ser “muito denso no simbolismo”, é preciso “descortinar passo a passo” ou “por camadas”. O orador deteve-se, então, na explicação detalhada das diversas secções, da estrutura literária e do simbolismo cósmico (cosmos), teriomórfico (animais), aritmético (números), cromático (cores) e antropológico (mundo dos homens) contido na obra.

© Samuel Mendonça
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O biblista considerou, assim, que “a teologia do Apocalipse é expressa em símbolos que convidam à descodificação e à explicação existencial, pessoal e comunitária”. “O Apocalipse tem este triângulo hermenêutico: o símbolo, a sua descodificação e o contexto histórico”, afirmou, lembrando que “a interpretação do símbolo exige o envolvimento da pessoa toda: a inteligência, os sentimentos e, sobretudo, a fé”. “A Bíblia é um livro da fé e para a fé”, acrescentou, evidenciando a importância de uma “leitura de fé e não de romance”.

Primeira parte da conferência 

Segunda parte da conferência 

Terceira parte da conferência 

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