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A conferência do padre Mário de Sousa, que constituiu ontem à noite a X Jornada Bíblica da Diocese do Algarve, evidenciou que a “grande finalidade” do evangelho São Marcos é levar os leitores a “descobrir, existencialmente, Jesus como Cristo e Filho de Deus”.

A Igreja do Algarve promoveu este ano a sua jornada bíblica num formato diferente devido à pandemia de covid-19. A iniciativa que costuma decorrer no Centro Pastoral e Social de Ferragudo, realizou-se este ano por via digital com a participação de cerca de 170 pessoas, através da página de Facebook da diocese e incidiu sobre aquele evangelista, tendo como tema “Evangelho de Marcos, o caminho do discípulo”.

“O grande convite do evangelho é que acompanhemos aquele centurião romano, que ao contemplar aquele Homem crucificado e morto, morrendo daquela maneira, possamos também nós, como ele, proclamar verdadeiramente: «este homem, este Filho do Homem, era Filho de Deus»”, destacou o sacerdote da Diocese do Algarve, realçando que, ao contemplar “a forma como Jesus morre”, “um pagão descobrirá antes dos discípulos que o Filho do Homem é o Filho de Deus”.

O orador explicou assim que “particularmente importante em Marcos é aquela expressão ‘Filho do Homem’”, “um título que convida à fé”, ou seja, a ver no “Filho do Homem” “o Cristo e o Filho de Deus”. O biblista acrescentou que a expressão “une os dois grandes temas do evangelho – a Cristologia e o Discipulado –, na medida em que apresenta o caminho de fé a que o discípulo é convidado: acreditar que Jesus, verdadeiramente Homem, é também Filho de Deus, enviado para julgar e salvar pelo ministério da sua morte e ressurreição”.

A propósito daqueles “dois grandes fios condutores do evangelho”, o padre Mário de Sousa referiu-se à “vincada intenção do evangelista”. “Apresenta-nos a nós, leitores, diferentes experiências de discipulado – sobretudo a experiência dos doze e depois também de uma série de personagens menores – para que tu e eu possamos concluir que nenhum discípulo é perfeito, que não encontramos em nenhum um modelo perfeito do que significa seguir Jesus”, afirmou.

“As dificuldades no seguimento, manifestadas pelos discípulos – que em Marcos são sobretudo os doze – são experiências nas quais o leitor se pode rever, aprendendo com os seus fracassos e, sobretudo, descobrir que o único modelo e caminho a seguir é Jesus. Por isso, a importância de se colocar atrás de Jesus e este é o grande tema do Discipulado”, desenvolveu.

“Marcos mostra-nos como o caminho de Jesus tem de ser também o caminho do discípulo, um caminho não de glória segundo os critérios humanos” – “muitas vezes de generosidade inicial, de boa vontade”, mas também “muitas vezes também contaminado” pelos “pré-conceitos”, “projetos”, “vontade” e pelas “imposições” que cada um quer fazer a Jesus –, “mas de glória segundo os critérios e o amor de Deus”.

O conferencista considerou que “o leitor precisa de se adentrar na obra e de confrontar com ela a sua vida para não se precipitar em conclusões sobre a natureza de Jesus”. “Marcos apresenta-nos que quando não há abertura de coração, há incapacidade de perceber esta novidade da Boa Nova que Jesus vem trazer”, afirmou.

O sacerdote sublinhou assim que o evangelista vem dizer que “o princípio do evangelho de Jesus Cristo tem agora continuidade no evangelho proclamado pelos discípulos”. “O importante é que recebamos esta Boa Nova, a façamos Boa Nova na nossa vida, purifiquemos aquilo que somos e o nosso discipulado para podermos ser sempre fiéis a Jesus como Ele nos é fiel, sempre disposto a preceder-nos e a recomeçar para que esse princípio do evangelho, que teve origem em Jesus e no seu anúncio, agora seja agarrado por nós e o levemos até aos confins do mundo. Esta é grande conclusão de Marcos”, destacou.

O palestrante explicou ainda que o texto do evangelista é dividido em “duas grandes partes”: a primeira “na Galileia, onde decorre a primeira parte da vida de Jesus”, onde se pode encontrar “um discipulado fiel”, e a segunda no “caminho para Jerusalém, onde se revelam as dificuldades que os discípulos começam a ter em seguir atrás de Jesus” e “na própria cidade de santa”. “A maioria dos autores reconhece que Marcos articulou o seu material de acordo com uma estrutura que corresponde a um desígnio literário e teológico”, prosseguiu, sustentando que “os critérios teológicos e geográficos concorrem a articular o evangelho em duas grandes partes, antecedidos de uma introdução e de uma conclusão no episódio da ressurreição”. “A vida e ministério, a morte e a ressurreição do Senhor. São estas etapas que estruturam a apresentação da obra”, complementou.

O biblista frisou não se encontrar no evangelho de Marcos uma “teologia sistematizada”, “na medida em que não há no seu Evangelho discursos sobre Deus, o ministério de Jesus ou a salvação”. “A apresentação teológica de Marcos é feita pela própria narrativa. Ele vai narrando a vida de Jesus, construindo episódio após episódio, a partir daquilo que o próprio Jesus diz ou realiza e das indicações que o narrador dá ao leitor”, desenvolveu explicando que a intervenção do narrador visa “orientar”, “ajudar a entender o sentido” de expressões ou gestos.

O padre Mário de Sousa lembrou ainda que o evangelho de São Marcos só no século XIX, “mas sobretudo no XX”, passou a ser valorizado “quando os estudiosos da Bíblia, os exegetas, chegam à conclusão de que afinal não é um resumo de Mateus”, mas, pelo contrário, é o mais antigo no qual Mateus e Lucas se baseiam” e que “Marcos passa a ser considerado por muitos autores como o criador de um novo género literário, de uma nova forma de escrever”, a que chamou evangelho. “Os evangelhos conservam sempre o caráter de pregação porque a preocupação não é satisfazer curiosidades históricas, mas oferecer aos cristãos o fundamento da sua fé e da sua vida cristã. Marcos foi o primeiro a elaborar uma obra com estas características e, por isso, muitos dizem que ele foi o inventor deste género literário”, explicou.

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