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Jornadas sublinharam que para Deus não há pessoas com deficiência

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© Samuel Mendonça

As II Jornadas da Pastoral da Pessoa com Deficiência, promovidas pela Igreja do Algarve no passado domingo na paróquia das Ferreiras, concelho de Albufeira, sublinharam que a vulnerabilidade existe em todas as pessoas e pode ser uma “graça” se aproveitada para reconfigurar a vida.

Na iniciativa, promovida pela Diocese do Algarve, através da futura equipa diocesana da Pastoral a Pessoas com Deficiência em colaboração com o Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência, o padre António Manuel Martins, docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, deixou claro que “a normalidade não existe”. “Todos nós, de um modo ou de outro, somos frágeis. Primeiro porque somos humanos. E somos corpo e este corpo é vida e é morte ao mesmo tempo. Todos nós somos portadores de deficiência, quer ela seja visível ou invisível. Há sempre na nossa vida humana um défice de qualquer coisa porque ninguém tem o equipamento psíquico e físico a cem por cento”, considerou o sacerdote na conferência sobre o tema “O dom de um Deus frágil”.

O orador considerou, por isso, que “a vulnerabilidade existe em toda a gente”, sendo que o que difere é o grau daquela, pois “cada pessoa é uma diferença única, que pode ser mais vulnerável ou menos vulnerável”. O padre António Martins frisou mesmo que essa condição pode até ser entendida como uma “graça”. “É uma graça porque implica o refazamento da nossa vida, do nosso discurso e das nossas relações uns com os outros”, sustentou, advertindo que “estas dimensões de pobreza humana, deficiência e de fragilidade, vistas do ponto de vista da fé ou na relação com Deus, podem aparecer como um castigo” e que, nesse caso, “implica uma nova reconfiguração da própria pessoa”.

O conferencista considerou que um filho portador de deficiência é um “dom frágil” que leva a “reconfigurar a vida”, a própria “relação como pessoa e com os outros e a defendê-lo na sua fragilidade”. “Quando nos reconciliamos com o dom da fragilidade de um filho, há também a graça de uma nova consciência. É uma aventura interior de luto, mas também de reconquista e, por isso, de graça, num grande combate interior”, complementou.

O padre António Martins frisou assim que “a força de Deus aparece no mundo através da fragilidade de uma criança” e que “o dom de Deus, que é o próprio Filho, chega na pobreza da condição humana”. “Acreditamos num Deus que é frágil, sendo forte. A força de Deus é a força do amor e da dádiva da vida e essa força vem a nós pela fragilidade, nossa e dos outros”, sustentou, acrescentando que o poder de Deus “não é o poder de quem esmaga e impõe”. “É, sobretudo, o poder de quem ama e este amor é sempre frágil porque pode ser recusado. Não se pode impor. Deus é forte a partir do amor com que vem ao meu corpo e com que, através dele, pode fazer uma profecia, um caminho, um desafio para os outros”, esclareceu.

Lembrando a “identificação de Jesus com os mais frágeis, com os deficientes – cegos, surdos, mudos, paralíticos e os que têm perturbações mentais –, uma “tribo de gente marginal, fora da regra moral e da sociedade”, que “são os eleitos de Jesus”, evidenciou que “Deus que faz uma opção preferencial por estas pessoas”.

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Pe. António Manuel Martins © Samuel Mendonça

O padre António Martins destacou que este entendimento da questão da deficiência é incompatível com o “discurso comum do mundo contemporâneo” segundo o qual “as pessoas valem pela sua capacidade de produzir, pela sua capacidade de serem úteis e eficazes, pela sua capacidade de boa aparência, de espetáculo, de força física e psíquica” “Vamos depois descobrir que a vida não é isso. Isso é uma ficção da própria vida. A vida tem uma dimensão de inútil, de improdutividade e de humanidade que se coloca no cuidado uns com os outros”, considerou.

Também o padre Joel Teixeira, na missa que encerrou as II Jornadas da Pastoral da Pessoa com Deficiência, lembrou a predileção de Jesus por estas pessoas. “Ainda está muito presente a mentalidade de um Deus castigador e que as doenças e as limitações, físicas ou psíquicas, são um castigo. Nada mais errado porque este é um Deus que faz todo o seu percurso, exatamente, junto daqueles que são mais marginalizados”, afirmou.

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© Samuel Mendonça

O sacerdote lembrou que “para Deus não há normais e anormais”. “Para Deus há pessoas. E pessoas que são amadas. Deus ama-nos não pelas nossas qualidades, pelos nossos defeitos, porque somos muito ricos ou muito pobres, muito bonitos ou muito feios. Deus ama-nos porque somos pessoas, porque somos a imagem de Deus para o mundo”, sublinhou.

“Estamos abertos à ação de Deus e disponíveis para ser instrumentos de Deus para aqueles que estão ao nosso lado? Ou somos os primeiros a marginalizar e a recriminar? É Deus que não nos ama ou somos nós que não nos amamos? Quantas crueldades fazemos uns aos outros… Quem me deu direito de julgar quem quer que seja? Sou melhor do que alguém?”, interrogou, acrescentando que todos podem ser portadores do “dom da cura”. “Enquanto cristãos temos essa missão, de acolher todos, de ir ao encontro, de curar. Quantas vezes o dar cinco minutos de atenção, o dar um abraço ou uma palavra de motivação é momento de encontro com Deus para aquela pessoa. Para Deus somos irmãos, por isso temos de nos amar e aprender a escutar”, referiu, lançando o desafio aos presentes de que aprendam a escutar aquele que está ao seu lado.

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