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ANDANDO, que há muito para os olhos e para os ouvidos, como quem diz, para os sentidos, vamos saltando das calçadas antigas, que nos vem em memórias medievais, para os novos espaços do século que vivemos: Loulé é uma cidade nos tempos actuais, que não se ofende nessa moldura de registos e de marcas históricas.

E, nesse ir vendo a recuperação da memória da cidade, nos monumentos que a cidade vem de muitos séculos construída, de religiões e de povos instalados que aqui chegaram no prazer de se fixarem, construindo alicerces, costumes, civilizações.

Não admira, admirando-nos, que o lugar, aldeia, vila e cidade, nesse contar dos séculos, chegando ao fim do século XX, e este novo século, que agora se conta, e se começa a recuperar daquilo que os homens negligenciaram.

Gosto de passar, passear neste laboratório da memória chamado Loulé! Uma cidade que se transforma. Que se recupera. Ela está em movimento constante. Sim! Recuperando-se: o velho arruinado ganha gosto de ver e de se utilizar aos tempos.

A manhã está fresca neste início de Junho. Chego à cruz central da cidade. Avanço a caminho do parque, a que toda a gente chama de Mata. Encho os pulmões do sadio ar de Loulé. Sinto as correntes que se cruzam do alto e baixo Algarve. É um prazer matinal nesta pequena floresta de atracções para as idades desportivas. Refeito, começo a descer, com paragem obrigatória, ao monumento do filho político mais ilustre da terra, Duarte Pacheco. É uma coluna incompleta, como foi a vida e obra daquele Pombal do século XX, na transformação arquitectónica na capital do país. O monumento, em projecto do arquitecto Luís Cristino da Silva e construção do algarvio Aníbal de Brito, é grandioso, tem a marca do homenageado…

Passo pelo mercado reconstruído e em largo. Vem do início do século XX. Há que passar e entrar nele, apanhar o perfume dos frutos tradicionais e lembrar a recomendação do rei D. João I, a 5 de Outubro de 1394, lembrando a carta que o rei de Aviz recebera da cidade de Bruges (Bélgica), grande centro de comércio, importadora dos nossos frutos, sobre a burla dos negociantes algarvios, nas transacções, em que os frutos transportados em canastras de vime, em que o fino fruto cobria o menos bom. Hia (a fruta) danada e feita com ella muita burla e malícia (1) E tomem lá burlões, os castigos repartidos em dinheiros para cavaleiros, e prisões para besteiros.

Descendo e passando pelo edifício da Câmara Municipal, chego ao café Calcinha, tenho por companheiro, o poeta Aleixo, num magnífico bronze do escultor Lagoa Henriques, ali fico esperando Solina, a jovem italiana e Franck, o francês para as nossas visitas à recuperada igreja de Nossa Senhora da Conceição, no âmbito do estudo académico, que ambos estão realizando. Entretanto vou saboreando o meu café, em memórias de tantos naturais notáveis que aqui nasceram ou habitaram, desde o célebre filósofo Al-Kuthayyr, Aleixo (poesia), Maria Campina (música), Laura Ayres (cientista), Viegas Guerreiro (etnografia), Duarte Pacheco (político), José Mendes Cabeçadas Júnior (presidente da república), Joaquim José Rasquinho (pintor), António Carrilho (bispo) (2).

Entretanto, os jovens chegam. Era tempo. Descemos uns trinta metros, entrando à esquerda, na zona histórica da cidade, pela rua Paio Peres Correia. Ali estava o procurado: a antiga igreja de Nossa Senhora da Conceição. É um pequeno templo, à entrada uma moldura de vidro que não nos impede de avançar, num primeiro ímpeto. Logo à soleira, podemos pisar, sem receios, encontram-se os vestígios da porta medieval da cidade. Até há tão pouco tempo, meia dúzia de anos, se afirmava que a pequena igreja fora construída na parte de fora das muralhas. O laboratório da pesquisa em avanços tão magnânimos ao conhecimento. É Solina que pede licença para captar imagens. Há conhecimentos a transmitir. A pequena igreja, no seu exterior forrada em cubos de pedra intacta, em cantaria compacta, como se de um tapete da muralha se tratasse; construída desde os meados do século XVII, sendo o ano provável de 1656 a do início da sua construção, na sequência da Restauração de Portugal, por ordem do rei D. João IV, considerando Nossa Senhora da Conceição padroeira de Portugal, cingindo a coroa real à Imagem da Imaculada. Todo o imóvel tem a característica do estilo Chão; planta de nave única. Na ausência de capela – mor está em nossa frente uma capela num retábulo de vários mestres. Já em meados do século XVIII, os responsáveis da confraria apresentam um projecto de renovação do templo, sendo a igreja contemplada, resultado da intervenção, como uma das mais interessantes manifestações artísticas do período setecentista no Algarve. Para tal um conjunto de notáveis artistas algarvios colaboraram, desde o escultor Miguel Nobre ao pintor Diogo de Sousa e Sartre, com Rodrigo Correia Pincho a dourar, a pintar e encarnar, não só a talha, mas também as imagens do Arcanjo S. Miguel e do Anjo da Guarda, dos mestres saídos da escola farense na arte sacra, dado à implantação de algumas oficinas de origem artística italiana, fixados em Faro, desde inícios do século XVII.

Ataíde Oliveira deixa na sua “Monografia de Loulé”, por outros arranjos por que a igreja passou, a meio do século XIX. Em 1842 estava (o tecto) maravilhosamente pintado pelo insigne pintor desta villa, o célebre Joaquim José Rasquinho (…) tendo ao centro um lindo quadro alusivo à Assumpção da Virgem.

Hoje, podemos visitar, consultar e admirar todo o conjunto sacro que a pequena igreja, agora, depois de recuperada, aberta ao público, em painéis de azulejaria do formulário rocaille. A leitura do imaginário muito rico, obedecendo à hierarquia, a imagem de N. S. da Conceição, orago deste pequeno templo, que ocupa o centro da tribuna, segue-se o Menino Jesus, Sant’Ana, Mãe da Virgem; ainda S. José e S. Joaquim, preenchem as peanhas dos intercolúneos.

Saímos da igreja pelo chão de vidro que nos dá a origem da muralha. Como o calor apertava, fomos, ali perto, junto à antiga rua de D. Pedro I, até o muito próximo largo das bicas velhas. A água cantava saindo para um pequeno tanque. Solina fez das mãos uma concha regalando-se na água que caía generosa, desde os tempos. Numa vista para o monte da Mãe Soberana, a jovem apontou para a cúpula do alto da colina, numa sonora admiração: “Parece um enorme champignon” (cogumelo). Informo ser, como desejam visitar, em estudo, a cúpula do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, o templo mariano que procuram, nessa singeleza vegetal.(3)

Havia que adiar a viagem do estudo mariano e sacro de Loulé. Regressaremos, quando possível.

P.S. Aos Leitores de “Cumplicidades”, até Setembro e boas férias.

Teodomiro Neto


O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

1) “Actas das Vereações de Loulé” 1384-85-94-96
2) “Louletanos Século XX” – Cadernos de Arquivo – T. Neto – Edição 2009
3) “Mãe Soberana de Carlos Porfírio” – in Cumplicidades
F. Domingo 2/05/2003

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