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Era uma vez, no tempo dos Imperadores, que os havia grandes e pequenos e até minúsculos.

Os Imperadores que eram, por assim dizer, os donos dos seus Impérios conviviam uns com os outros e, muitas vezes, discutiam os problemas dos seus Impérios e as relações com os seus súbditos incluindo os cortesãos que povoavam a sua corte e, cheios de mesuras, os serviam.

Nesses encontros imperiais vinham à baila todos os assuntos, desde as conjuras e os conluios até às festanças e bacanais, restritas e muito secretas e seguras…

Presente a esses imperiais colóquios encontrava-se, por vezes, um ou outro cortesão mais íntimo de algum dos Imperadores. Era o único que não participava nas conversas, só ouvia e ia ruminando consigo mesmo os ditos espirituosos e todas as pilhérias dos grandes, dos pequenos e dos minúsculos imperadores… Todos tinham casos a contar, aventuras escabrosas, pleitos e vinganças sobre um ou outro súbdito que ousava não concordar com as suas ideias de governo…

Aquilo era um desfilar sem fim de casos e casinhos, por entre risos de uns e admiração de outros, mas todos, em despique, lá iram narrando as suas experiências e os seus métodos de actuação perante os povos que os escolhiam e os ovacionavam…

Então, havia uns que referiam entusiasmados os seus métodos e processos infalíveis, segundo eles, para captarem a simpatia e o voto da maioria dos seus súbditos.

E todos, ao desafio, apregoavam os seus, como os mais eficientes de todos os métodos e processos.
Diziam uns, pois, olhai, não há método melhor do que prometer benesses, prometer honras e cargos chorudos, não há quem resista, garante-vos…

E logo outros avançavam: festas, muitas festas, jantares e jogos, muitos jogos para que o povo fique eufórico e atordoado, este é que é o método dos métodos, que me tem proporcionado lucros espectaculares em todos os actos eleitorais…

Enfim, eram reuniões de alto nível, à mistura com lautos e regados banquetes, tudo para o bem do povo, tudo para o progresso e desenvolvimento da nação…

Nessa altura, já na alegria e no conforto estomacal, juntamente com alguns vapores a subirem ao cérebro, eis que algumas línguas se desatavam e começavam a falar as bocas do que lhes ia lá no fundo do coração.

Então, até segredos se panteavam, tramas, ódios e vinganças grandes e pequenas, consoante o tamanho dos impérios, a raiva e a maldade dos imperadores.

O cortesão privilegiado que assistia aquilo tudo pasmava e, uma vez ou outra, no mais rigoroso sigilo, prevenia alguns visados para que se acautelassem porque estavam na mira de tal ou tal imperador…

Se o avisado era tímido ficava apavorado e toca logo a mover os cordelinhos para evitar as iras da imperial figura que assim o ameaçava.

Outros, porém, conscientes da sua inocência e assistidos pela Verdade, aguardavam impávida e serenamente os ataques furibundos dos seus senhores imperadores…

E quando eram concretizadas todas essas ameaças, as gentes sabiam bem de que lado estava a razão mas, impotentes perante o poder despótico, apenas se solidarizavam com o perseguido e sofredor de injustiças, nestes termos: “estou contigo, pois, sei que estás a pagar o preço da tua coragem e a cobardia de muitos…”

E o visado limitava-se a responder: cada imperador tem os seus métodos e processos de ganhar o povo e abater todos os que discordam ou não se submetem à sua imperial vontade, à sua imperial vaidade e ao seu imperial orgulho.

Joaquim Mendes Marques

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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