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Já há algum tempo, mais precisamente desde que surgiu esta crise económica, que se fala no aumento das depressões e das tendências suicidas. No entanto, até à semana passada, o assunto ainda era tratado num círculo de especialistas, não tendo chegado à discussão na praça pública. Um facto alterou isto e despertou-nos para esta realidade muito preocupante e, segundo alguns especialistas, com tendência para aumentar: um grego de 77 anos pôs termo à vida.

Farmacêutico reformado, suicidou-se com um tiro na cabeça em frente ao Parlamento grego, protestando pela falta de futuro do país. Segundo algumas testemunhas, o septuagenário terá gritado "tenho dívidas, não aguento mais" e "não quero deixar as minhas dívidas para o meu filho". No bolso, encontrou-se uma nota a justificar o ato: "o governo aniquilou qualquer esperança para a minha sobrevivência. Não encontro nenhuma outra forma de luta, exceto um fim digno, antes de eu começar a procurar comida no lixo".

Este acontecimento espoletou uma série de reações: para além das inúmeras manifestações e protestos em frente ao parlamento grego, surgiram estudos e análises nos quais fica explícito que, na Grécia – onde a taxa de suicídio era reduzida – os números têm vindo a aumentar nos últimos dois anos. Pondo fim à vida, este pensionista lançou um novo alerta para este problema. Comparando a situação grega de 2011 com 2009, vemos que a taxa cresceu 40 por cento e são vários os estudos que identificam aumentos nos casos de depressão, devido à crise económica e à fraca esperança no futuro do país.

Também em Portugal o alerta já foi dado pelos especialistas. Para eles, a crise económica é responsável por quadros depressivos já visíveis e que constituem um "importante risco" de aparecimento de comportamentos autodestrutivos. Esses comportamentos são especialmente detetáveis em famílias cujos dois cônjuges perderam o emprego, situação cada vez mais frequente. Normalmente esses comportamentos autodestrutivos, de que o suicídio é a forma mais grave, surgem num contexto de uma extraordinária desesperança, de uma descrença na resolução dos problemas e são uma das principais consequências do desemprego. Muitas vezes, quem fica desempregado começa a achar-se incapaz, a achar que nada vale, a achar-se um fardo para os outros.

Vejo-me no lugar do filho daquele homem: não terá herdado dívidas, mas perdeu o pai, provavelmente o seu amparo e a sua força durante toda a vida e nestes momentos de dificuldades, mais ainda. E para quê?!!… Esta morte alterou a situação, mudou a crise?!… Despertou as consciências?!… Mudou as razões de agir dos políticos e os seus objetivos?!…………….. Morreu um inocente, apenas isso… Naquele dia foi notícia de abertura de telejornais; uma semana depois, tamanha é a velocidade e a voracidade da informação contemporânea, ninguém mais se recorda dele… Exceto o filho, que nunca esquecerá que o seu pai se suicidou, para não lhe deixar as dívidas e viverá, quem sabe, amargurado por esse facto.

Muitas vezes esquecemo-nos de algo vital: por detrás de cada número, de cada medida de austeridade, de cada lei que temos de cumprir e fazer cumprir, está um ser humano, uma pessoa, alguém que foi feito à imagem e semelhança de Deus e que Jesus Cristo também salvou com a sua morte e ressurreição, a morte de um inocente que, ao contrário desta, salvou a Humanidade.

Pe. Miguel Neto

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