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NATAL DE AUSTERIDADE

Depois de várias décadas de promoção do Natal como festa do consumo, eis que temos este ano um Natal de austeridade, situação que se nota logo nas inexistentes iluminações de rua. Em anos anteriores, embora já se sentissem os efeitos da crise, os Municípios ainda mandavam iluminar as ruas, apesar de já estarem endividados, as famílias ainda faziam compras descontroladas, apesar de já estarem muito endividadas e todos andávamos mergulhados na espiral consumista. Este ano, é diferente. Há mesmo austeridade. Em muitas cidades, pura e simplesmente não há qualquer iluminação natalícia e naquelas em que ainda se pode ver alguma iluminação, esta é reduzida e parcimoniosa. A crise chegou mesmo, a austeridade sente-se e vê-se!

Infelizmente, porém, a austeridade sente-se também nos cortes salariais, no aumento dos impostos e das taxas, nas portagens do auto estradas, no congelamento dos abonos de família e dos subsídios sociais. Mas, apesar de tudo isto, é Natal e não é menos Natal por causa disto. O Menino Jesus nasceu na austeridade!

Não é a falta de luzes de Natal nas ruas ou um menor consumo natalício que nos deve preocupar. O que de verdade nos preocupa é que cerca de 20% dos portugueses vivem no limiar da pobreza e se os subsídios da Segurança Social continuarem a ser restringidos tal nível de risco pode duplicar para cerca de 40%. Isso sim é que é muito preocupante.

Passada a ilusão do consumismo, das facilidades das engenharias financeiras, do crédito fácil e da vida a crédito, de uma vida de fachada e de mentira, chegou a hora da verdade: Somos um país pobre, aliás sempre fomos um país pobre, embora tivéssemos hábitos de consumo de ricos.

Também aqui e talvez até especialmente aqui, se possa dizer que a verdade é libertadora. A primeira condição para podermos sair deste ciclo de pobreza é assumirmos todos a nossa verdade, individual e coletiva e não a andarmos a esconder e a adiar a verdade com paliativos de "engenharia financeira".

Portugal é pobre, os portugueses em geral são pobres e os orçamentos são limitados. Seja no Estado, nas autarquias, nas empresas e nas organizações sociais, seja nas famílias todos têm de ter consciência que os orçamentos são limitados e não chegam para todas as necessidades, pelo que haverá que as escolher, escolher as que são verdadeiramente prioritárias.

O Natal de 2011 é um Natal mais pobre, mais frugal, mais simples, mas também mais verdadeiro. Não fico feliz por isso. Pelo contrário, tenho consciência dos efeitos profundamente negativos que tal quebra do consumo terá no pequeno comércio, nas empresas familiares e portanto nas famílias dos empresários e dos trabalhadores. Também por isso, 2012 será um ano em que se vão acentuar as falências, as insolvências empresariais e pessoais. Ninguém está a salvo de um tal cenário de falências e desemprego. Ninguém! Por isso, a palavra de ordem para o próximo ano terá de ser poupança e trabalho. Só com poupança e trabalho poderemos ultrapassar esta fase menos boa da nossa vida coletiva.

Ao terminar o ano de 2011 dou também por terminada esta coluna de opinião. Nos últimos meses novas tarefas e responsabilidades me foram confiadas, o que me impede de continuar a manter a mesma disponibilidade para escrever estes artigos. Na vida temos que fazer opções. A todos os leitores da Folha do Domingo desejo um Santo Natal e um Ano de 2012 o mais feliz que seja possível.

Luís Galante

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