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Celebrar a Eucaristia depois do dia 31 de maio de 2020 é celebrar a vida num novo recomeço da nossa relação com Deus. Senti que, para alguns, seria o equivalente a festejar a passagem da nossa ausência diante de Deus, para a presença de Deus diante da nossa frágil existência. Foi muito difícil estar nas eucaristias no dia de Pentecostes. Se não foi o fim de semana mais difícil da minha vida enquanto pároco, foi dos mais difíceis. O nervosismo de um novo começo. A angústia de se estar escrupulosamente a cumprir todas as normas de saúde pública, para que aquelas eucaristias não sejam foco de contágio para todos, especialmente os mais vulneráveis, mas fazendo-o num livre e disponível encontro pessoal com Jesus Cristo Ressuscitado. E, para mim o pior de tudo: a nova realidade das máscaras, que não deixam transparecem a tristeza daquele que precisa de conforto ou daquela que está alegre pela renovada partilha física da Fé. Só mesmo a força do Espírito Santo, celebrado intensamente nesse Domingo, conseguiu fazer com que tivesse força e serenidade para lidar com esta nova realidade, que não deixa perceber os sentimentos, a alegria e a tristeza de tanto Povo de Deus. Olhar para diante de mim e ver tantos sorrisos e lágrimas tapados por um tecido higiénico é pior que olhar para qualquer câmara de telemóvel. Ao menos aí não tenho a angústia de tentar perceber que palavra de esperança ou consolo devo dizer a cada momento. Olhar para tantas máscaras é terminar com a especificidade de cada um na minha vida. É viver como se todos os olhares fossem os mesmos, como se cada um não tivesse o seu sorriso.

Superei! Não gosto, não me habituei, mas superei e sobretudo aprendi a ver sentimentos, alegrias e tristezas por de trás da tal máscara que cada um coloca para proteger a sua vida. Talvez fosse isso que eu tivesse de perceber: que o sorriso que fala é aquele que habita no interior de cada ser e não aquele que transparece do gesto físico de sorrir e olhar sorrindo. E que se calhar a máscara não tapa assim tanto…

Este novo começo ajuda-me a perceber a intensidade que vem do interior de cada um, mostrando verdadeiramente que o “essencial é invisível aos olhos”, como escreveu profeticamente Antoine de Saint-Exupéry, se os olhos que virem forem somente os físicos e não os do coração.

Descobrir a fé, dar esperança e praticar a caridade por detrás da máscara de cada um é o novo desafio que se impõe na vida de cada um de nós. Sendo padre é mais difícil, mas é possível. Além disso, descobrimos a importância do acolhimento à entrada da comunidade cristã. Ninguém chega indiferentemente ao Templo do Senhor. É recebido pelo seus. Por aqueles que, sendo da mesma comunidade, se colocaram ao serviço para receber o próximo e que, por isso, precisam de encontrar em si mesmos uma disponibilidade para uma maior proximidade interior. Descobrimos o valor do canto com poucos elementos, mas que é acompanhado pelos que estão na assembleia a escutar. Sentimos que há mais espírito de comunidade. Não são só alguns que trabalham; são todos que importam. Criamos verdadeira comunhão em torno dos que vivemos à volta do Senhor na mesma comunidade.

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