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O Algarve tem um registo muito relativo em comparação às demais regiões do País, havendo razões para essa desvalorização em termos de valores musicais: o Algarve sempre foi desprezado, no ensino da música erudita; nunca os governos criaram no Algarve um Conservatório Oficial de Artes Musicais. No último quartel do século XX (1972), o ministro da Educação, de então, Veiga Simão, concede um alvará para o ensino musical, em Faro, que funcionou no Teatro Lethes, por cedência do espaço, pelo seu proprietário, engenheiro Sande Lemos. Quando o primeiro Ministro Cavaco Silva, do X Governo Constitucional (6/11/1895), veio a Faro inaugurar o novo Conservatório, (04/07/1993), em terreno cedido pela Câmara Municipal de Faro (Presidente Negrão Belo), o primeiro Ministro de Portugal esqueceu-se que uma grande e importante Senhora da música portuguesa (Maria Campina) tanto lutara e se expusera (nessa posição de Mulher combativa pelo ensino da música no seu Algarve e País, sofrendo as contingências da política da ditadura), o então algarvio primeiro Ministro não soube emendar o erro do ministro da ditadura, Veiga Simão, deixando o Algarve sem a desejada escola Superior de Música. Por mais, as verbas da construção do imóvel foram custeadas pelo Estado Português. Assim, só os jovens algarvios perderam, perdendo um ensino oficial, que continua em lacuna, dando lugar a um ensino básico e elitista, deixando e força, quiçá, talentos.

Não deixarei de homenagear as figuras de alguns algarvios que desde 1640 se dedicaram à ciência da música no Algarve: Frei Luís das Chagas (Portimão-1640), Vicente Maior do Rosário (Tavira-1796), José de Sá (Tavira-1801), Guilherme Centazzi (Faro-1808), Militão José de Sousa Coelho (Faro-1818), José Maria Pádua (Olhão-1841), João dos Santos Fernandes (Vila R. S. António-1850). Com o início do século XX temos importantes compositores e professores de música, a partir do Conservatório de Lisboa: Francisco Fernandes Lopes (Olhão), Ema Romero Fonseca (Faro), Mariana Pacheco (Faro), José Duarte (Portimão), Eduardo Pavia de Magalhães (Tavira), António Marques (Silves), João Guerreiro da Costa Júnior (Vila R. S. António). José António Pinheiro e Rosa (Faro) deixou muita música sacra.

Maria Campina, Alfredo de Mascarenhas e Arminda Correia, foram os nomes de algarvios mais destacados na música algarvia; sendo Maria Campina o nome mais fulgurante da interpretação musical clássica. Nascida em Loulé. (1914-1984). Alfredo de Mascarenhas, natural de Portimão (1882-1943). Arminda Correia, natural de Lagos (1903-1989).Tracemos o perfil da Mozartiana algarvia, que foi: Maria Campina a intérprete levada além-fronteiras. Muito jovem, aos 16 anos instala-se em Lisboa, entrando no Conservatório Nacional. Tem como professores Aroldo Silva, Pavia de Magalhães, Luís de Freitas Branco, Varela Cid, entre outros. Até que ganhe todos os prémios nacionais para os melhores alunos e com maior distinção. Aos 21 anos dá o primeiro concerto. Está aberto os caminhos da música. Em 1935 vem ao Algarve, à sua terra de Loulé, e oferece à sua vila, Agosto de 1935, o Concerto Algarvio, que a todos maravilha, no dizer, de nosso admirado musicólogo, Francisco Fernandes Lopes. No entanto, o Conservatório Nacional de Lisboa não aceita a sua mais consagrada aluna como docente da primeira escola de música do País. O director daquela escola impede o ingresso da algarvia. O professor doutor Raul Vieira Nery, num recente estudo, escreve que Ivo Cruz foi o principal responsável pela destruição da reforma inteligente e ambiciosa que Viana da Mota e Luís de Freitas Branco tinham tentado levar a cabo nos métodos de ensino da principal Escola de Música do País. Ivo Cruz, instituíra, em alternativa, uma estrutura pedagógica manifestamente anacrónica e inadequada à formação. Maria Campina, jovem mulher de muita coragem, luta contra o conservadorismo do sistema. Corre o país, dando concertos e praticando palestras-lições, escreve em revistas, na imprensa nacional e regional, a importância da pedagogia da música no ensino. Finda a 2.º guerra mundial exila-se para o Funchal, onde funda e dirige a primeira escola de música, apoiada pelas autoridades locais do arquipélago madeirense. Em 1949, o célebre maestro alemão, Reynard Wolf, assistindo a um concerto de Maria, leva-a a participar no famoso festival, mundial, de Salzburg. Numa quinta-feira, 25 de Agosto de 1949, como consta no programa: INTERNATIONALE SOMMER-AKADEMIE AM MOZARTEUM IN SALZBURG-Donnerstag den 25 August 1949, um 17 Uhr 6 Konzertsunde W.ª Mozart Sonate B-Dur K.V. 281 Allegro moderato-Andante-Rondo: Allegro MARIA CAMPINA- PORTUGAL. Na noite de 27 de Agosto, a pianista vencedora por unanimidade, entra no célebre teatro Felsenreitschule para o memorável concerto: FANTASIA HÚNGARA de Franz Liszt, Orquestra Filarmónica de Viena, conduzida pelo maestro americano Ermeson Kailley. As portas da Europa… do mundo abrem-se para a considerada Maior Concertista mundial desse meio século, que a leva aos maiores palcos do mundo. Quando regressa a Portugal, Salazar abre-lhe as portas do Conservatório. Campina agradece e recusa. O mundo esperava pelos seus concertos. E assim foi, até que, uma artrite reumatóide, a impossibilite como concertista, e a morte lhe chegue aos setenta anos. Para trás ficaram um dos seus sonhos imperfeitos: um alvará para uma simples escola de iniciação musical. Numa entrevista que me concedeu, 17/11/1978 (1), afirmava, numa esperança: Isto (o conservatório em Faro fundado no Outono de 1972, no Lethes), é o princípio do desejado. Uma decisão governamental que ainda demora…

Alfredo de Mascarenhos foi o mais distinto cantor lírico algarvio. Depois de ter iniciado no Seminário de S. José, em Faro, lições de música e canto, o Bispo do Algarve (passando a Cardeal Patriarca de Lisboa), D. António Belo, apoia o jovem Alfredo, encaminhando-o para Roma. Estuda com o consagrado mestre Matteini, e outros se lhe seguem. Aos 26 anos, o jovem de Portimão, estreia-se no teatro Perugi, em Roma. Em 1909 continua, no teatro Quirino, ainda em Roma. Com os Puritanos de Bellini passa ao Scala de Milano. Depois de muito aplaudido por toda a Itália, França, Alemanha, Espanha, Mascarenhas chega a Portugal, em 1913, para o público de Lisboa. Actua no S. Carlos, no Nacional D. Maria II e no Coliseu dos Recreios. Está com 31 anos. Alfredo Mascarenhas não se esquece da cidade de Faro, vem ao Lethes, segue para a sua Portimão, em concertos celebrados. Mascarenhas acabou nos E.U.A, como professor de canto, na Universidade de Bedford.(2)

Arminda Correia foi uma notável senhora do grande canto. Divulgadora da obra musical do compositor Fernando Lopes Graça. Por isso, o Conservatório Nacional de Lisboa também rejeitou a sua laureada aluna, só nele entrando como mestra, depois do seu reconhecimento por Paris e outras capitais europeias(3).

A música dita popular teve no Algarve notável divulgação. Assim, em 1908, Faro tem nas suas festas populares uma novidade, cria uma atracção, um certame musical, o primeiro no género, no Algarve. De toda a província inscrevem-se várias filarmónicas e a peça comum ao festival seria a Ouverture do Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Nesse 22 de Junho de 1908, todo o Algarve musical afluiu à Alameda João de Deus. Entradas pagas: Milhares ocorrem ao lindo e original jardim público. Foi o grande período das filarmónicas; só em Faro conheceram-se 17, num período de 20 anos. A cultura da música popular, é na cidade de Faro, a maior expressão de todo o Algarve. Já vinha de 1876 o forte embrião de tocadores, iniciados na orquestra do teatro Lethes e em continuidade com a formação da 1.ª Orquestra Sinfónica de Faro, estreada em 1916, sob direcção do maestro Rebelo Neves. A 29 de Outubro de 1925, há uma novidade: Grande concurso de harmónio no Cine-Teatro Farense, com o fim de incentivar a difusão deste instrumento de foles de uma, duas ou três escalas. Concorrem os acordeonistas da época: José Massena Filho, Ceguinho da Luz, José Padeiro, José Ferreiro, entre outros. É o lançamento do corridinho como Hino Algarvio. Depois os poetas deram-lhe voz. A 10 de Junho de 1930, cria-se o primeiro Rancho Folclórico do Algarve, em Faro. Foi seu fundador Henrique Bernardo Ramos. O acordeonista José Ferreira (pai) compõe o célebre corridinho Alma Algarvia. Os bailadores ganharam fama, e em Fevereiro de 1934 foram à capital do Norte, à Exposição Colonial do Porto(4). Aos 82 anos de actividade continuamos a aplaudir o Grupo Folclórico de Faro. Com o século XX a terminar, o Festival de Música do Algarve, iniciado no início dos anos 70, e o turismo abrindo-se mais à Europa, a região entra numa nova era. Os grandes cantores de Espanha: Montserrat Caballé e José Carreras, com o italiano Luciano Pavarotti numa evocação, na noite de 21/06/2000, no estádio de S. Luís, renascia, em Faro, o belo canto de outrora. E tudo se completa, 86 anos depois, na desejada Orquestra do Algarve. O maestro Álvaro Cassuto, o primeiro maestro titular haveria de me conceder uma entrevista, afirmando que, em termos de uma actividade musical, sediada, no Algarve, há um vazio(5).

1) “O Último Concerto de Maria Campina” Edição 1988 – T. Neto
2) “Algarve Rostos do Século” – Edição Diário de Notícias” – 2000 – T. Neto
3) “Quem Foi Quem?” Edição Colibri -2000 Glória M – Marreiros
4) “Da judenga ao Corridinho”- Ensaio publicado em 1988. T. Neto

Teodomiro Neto

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortigráfico

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