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«Quem vem à Igreja vem para rezar, não para falar» ou «Onde há muitas opiniões está presente o demónio» são frases que nós, cristãos – clérigos ou leigos – ouvimos incredulamente, ou proferimos tantas vezes repreendendo inadvertidamente, sem pensar nas consequências autoritárias e de afastamento de Deus que as mesmas podem comportar.

E nem sequer é preciso ir à China onde está o maior e mais conhecido regime ditatorial e autoritário do mundo. Demonstrações de repressão e de abuso de poder eclesial há em toda a parte do mundo. Em todas as dioceses e paróquias e com gente parecida connosco, comigo, que sou clérigo, com os leigos que agora leem este texto. Uns escutam, de coração triste e sentem-se excluídos; outros falam, do alto da sua posição e, com o que dizem, excluem.

Estamos a fazer um caminho de partilha e de renovação na Igreja. É essa a proposta do sucessor de Pedro, escolhido por ação do Espírito Santo, para nos guiar: o Papa Francisco. Esse caminho é, dizem os teólogos, um «um caminho para todos os fiéis» (Vademecum para o Sínodo sobre a Sinodalidade, p. 10), ou seja, um caminho de inclusão. Não é apenas para «uma assembleia de bispos», mas, sim, um espaço de reflexão e discernimento que envolve todos os batizados, pois «tanto a hierarquia como os leigos, são chamados a ser participantes ativos na missão salvífica da Igreja (LG 32-33)» (p. 10).

Possuidores de «dons e carismas para a renovação e edificação da Igreja, como membros do Corpo de Cristo» todos eles diferentes, é em comunhão que vivem; é em comunhão que podem fazer sentir a sua presença; é em comunhão que manifestam a presença viva de Deus junto de todos os homens. Falo de todos os batizados, leigos e clérigos. E falo de comunhão, que é a relação mais profunda através da qual se cria comunidade, se proporciona a participação mútua, a associação, o carácter comum, a conformidade.

E, no entanto, ainda há os que acreditam que a Igreja para uns é somente para rezar. Certamente para estar diante dos Santos em profunda devoção ou para venerar as suas relíquias pedindo-lhes intercessão e graças, por entre o fumo do incenso e os cantos mais ou menos elaborados. A Igreja dos que apenas rezam deve ser, para quem nisso crê, silenciosa. Uma Igreja de espera e de imobilidade. Uma Igreja onde a ação que se pode e deve fazer passa somente pela caridade dirigida, pela obediência às regras de quem tem uma posição hierárquica “maior”, uma Igreja de soldados mudos e incapazes de questionar a tática do general que tem o mando. Esquecem que «a autoridade pedagógica do Papa e dos bispos [e dos padres] está em diálogo com o sensus fidelium, a voz viva do Povo de Deus» (p.10) e que essa autoridade, assente nesta capacidade de ouvir várias opiniões de TODOS, não é fruto da ação do Demónio, mas ao contrário, do Espírito Santo. É fruto, igualmente, do respeito que todos devemos ter uns pelos outros, um respeito profundo e assente na justiça, no sentido em que devemos olhar o outro – seja o clérigo, seja o leigo – como próximo, não como ameaça; não como objeto de inveja; não como alguém a quem corrigir pelo nosso sentido de sabedoria arrogante e magoado pela vaidade que nos quer fazer mais visíveis e notados.

Neste processo que está em marcha no mundo inteiro é-nos pedido que escutemos «a voz viva do Povo de Deus (p. 10)». É esse o objetivo da realização deste Sínodo, «escutar (…) o que o Espírito Santo está a dizer à Igreja. Fazemo-lo escutando juntos a Palavra de Deus na Sagrada Escritura e na Tradição viva da Igreja e, depois, escutando-nos uns aos outros e especialmente aos que estão à margem, discernindo os sinais dos tempos», porque «todo o Processo Sinodal visa promover uma experiência vivida de discernimento, participação e corresponsabilidade, onde se reúne uma diversidade de dons para a missão da Igreja no mundo (p. 11)».

Quem teme ouvir os que estão à sua volta, teme a si mesmo. É inseguro e acredita que a autoridade se impõe, ao invés de se conquistar, com as graças da sabedoria e da humildade manifestadas por Jesus Menino, que no templo, sentado entre os doutores, os questionava e escutava (Lc, 2, 43-52) e estes admiravam-se e maravilhavam-se com a sua inteligência.

O abuso de poder e autoritarismo eclesial, para além de demonstrar falta de educação e de formação humana, revela o sentimento anti Sínodo, ou o lado triste desta grande comunidade chamada Igreja. E a Igreja, essa grande comunidade, para viver, precisa da diversidade como alimento espiritual de criação de comunhão. E essa manifestação nunca poderá passar por obra do maligno.

Desejo, de coração, que em todas as paróquias do mundo se esteja a falar deste tema, a debater, a criar, como nos foi pedido, grupos de trabalho, para que o Sínodo seja um processo frutífero e participado, que se destina « a inspirar as pessoas a sonhar com a Igreja que somos chamados a ser, a fazer florescer as esperanças das pessoas, a estimular a confiança, a vendar as feridas, a tecer relações novas e mais profundas, a aprender uns com os outros, a construir pontes, a iluminar mentes, a aquecer corações e a dar força de novo às nossas mãos para a nossa missão comum (DP, 32) (p.11)».

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