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QUEREMOS falar das estátuas Amanhecer e Anoitecer misteriosamente desaparecidas enquanto obras de recuperação estavam a ser executadas no palácio de Estoi. Os meios de comunicação deram a notícia, após ser notada a falta das duas estatuetas, acima de uma tonelada cada, peças em mármore branco, que chegaram em finais do século XIX (supostamente da Itália), a quando da compra da antiga residência da família Francisco Pereira do Carvalhal, nobres de Faro, pelo rico proprietário rural e farmacêutico, que fora em Beja, José Francisco da Silva, natural de Estoi.

É a partir da compra aos herdeiros dos Carvalhais, em 1893, que o rico natural de Estoi, se propõe restaurar a velha quinta, meio abandonada, dando-lhe a dignidade romântica que tardiamente se revivia, em imagens de Sintra, de Queluz, mas nunca na sumptuosidade dum Versailles, como em comparação exagerada se cita, numa grandiosidade trapalhona.

Como sabemos, a arquitectura dita romântica, concedeu aos arquitectos toda a liberdade de expressão artística. E tudo lá está, aos dias de hoje, atravessando todo o século XX, em deslumbramentos de êxtase.

E tudo lá está? Não será bem assim… Porque muito tem sido delapidado, numa ou noutra oportunidade, lembrando que os jardins do palácio foram durante décadas o passeio romântico dos farenses e de outras zonas do país. Habituámo-nos à franqueza dos seus portões abertos à população, à procura da melhor imagem, ao recanto da melhor inspiração poética ou amorosa, em busca da ilusão que se atravessa na juventude. Por isso, o jardim do palácio de Estoi pareceu pertencer-nos, estando às portas de Faro, eram frequentes e constantes esses passeios, percorrer os espaços verdes e ajardinados, ganhar uma imagem fotográfica pelo calendário de festas familiares: casamento ou outra efeméride, em espasmos da decoração nos quadros azulejados, sendo a grande e majestosa referência, a par da estatuária, entre contornos de escadórios, em jogos de imaginária sedução, aos olhares cegos dos poetas, príncipes e demais famílias em memórias históricas.

Deve o Leitor seguir, em imagem recriada pela leitura, os contornos das memórias de quem por lá passou em tempos idos, o que viu e do que já não está para ser revisto, pela situação inusitada que se criou pelo desfasamento do património que, por acaso nos pertence, dado o jardim e palácio de Estoi ser propriedade patrimonial da cidade de Faro, pela aquisição da Câmara Municipal, aos proprietários, em 1987, pelo valor, em escudos de 140.000 contos.

Já fora classificado imóvel de interesse Público, já a Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais, desde 1993, procedera ao seu restauro e reabilitação. Contudo, é sobre responsabilidade dos actuais gestores de hotelaria que as duas estátuas foram deslocadas para parte incerta, em momento incerto, no silêncio das obras! Há responsabilidades quando se justifica, perante a pergunta: Em boato, afirma-se que as estátuas se encontrarem em Espanha, outras vezes, se julgam na Holanda. E assim vamos ficar. Que o tempo proteja o mistério do roubo!?

Regressando ao historial e ao seu proprietário e restaurador, Francisco José da Silva, já na altura liderava em Beja, o partido progressista, viria a ser nomeado visconde, em Janeiro de 1906, pelo rei D. Carlos, em reconhecimento pelo valor da obra que veio valorizar o concelho de Faro, lhe mereceu o título. Pois bem, quando, em 1926, o visconde de Estoi deixou de fazer parte dos vivos, o palácio e jardim e anexos passaram à posse de Maria do Carmo Assis Melo Machado e sucessão de herdeiros, até que em 1987, como se diz, o palácio e anexos foram adquiridos pela Câmara Municipal de Faro, com várias opiniões de uso: residencial de Verão à presidência da República, Centro Cultural de Faro, etc. Justificando-se que o uso fruto dos espaços seriam destinados aos munícipes do concelho.

Considerando que a alternativa ao palácio seria a de ser explorado por uma empresa de hotelaria, com a responsabilidade desta reabilitar todo o património no espaço longo do uso, (serão 50 anos?), sendo a entrada do largo da igreja facultativo ao público (como sempre foi facultativo aos habitantes e mesmo visitantes ao lugar), será essa a responsabilidade para com a proprietária, a Câmara de Faro, que tudo se respeite e se reponha. Também essa é uma responsabilidade da Autarquia de Faro. Diremos, uma exigência que cabe ao senhorio.

P.S. O espaço utilizado pelas estátuas do Amanhecer e do Anoitecer desaparecidas misteriosamente, sendo ambas colocadas em molduras de calcário, tendo por fundo delicados painéis de azulejos, da autoria de José António Jorge Pinto, artista que estudou na Academia de Belas Artes de Lisboa. A estátua do Amanhecer abraça a cabeça de um leão, uma longa trança vem lhe escorregando pelo corpo que o cobre em parte. Uma grande e artística concha em pedra mármore branco está colocada frente à estátua do Amanhecer. O painel anterior à estátua mostra-nos um casal de pernaltas num ambiente líquido e de flora que se enquadra. Ainda a estátua, sentada e de semblante ausente, segura na mão esquerda que se alonga até ao joelho, um bouquet de flores que se lhe escorregam.

A estátua do Anoitecer situava-se à esquerda do visitante. Tem as mesmas dimensões da sua congénere, tamanho humano feminino; o mesmo tipo de moldura calcária, cobre o meio corpo numa franja larga de tecido; a mão direita segura frutos e flores, que se estendem até aos pés. Ao contrário da sua estátua irmã, esta do Anoitecer tem aos pés um reservatório de água em ângulos diédricos. O painel de azulejos da autoria de Jorge Pinto, dá-nos a ambiência crepuscular.

Hoje temos em ambos os espaços, o vazio de tudo o que foi a arte escultural; a arte de azulejaria. Lá estão as molduras vazias, entaipadas, numa argamassa comprometedora.

Teodomiro Neto
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