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A 5 de Julho de 1910, na oportunidade das festas da cidade de Faro, foi inaugurado o primeiro monumento civil da cidade, em homenagem ao cidadão José Bento Ferreira d’Almeida, na então avenida D. Amélia (hoje avenida da República).

O magnífico e majestoso obelisco, que se ergue na baixa farense, foi oferecido à cidade pelos amigos do antigo ministro da marinha portuguesa, que nascera em Faro, a 7 de Maio de 1847 e falecera em Livorno (Itália), a 4 de Setembro de 1902.

José B. F. D’Almeida figura destacável na política monárquica, vindo em grande ascensão de carreira militar, política e diplomática; oficial, governador em Moçambique, deputado, Par do Reino, foi um cidadão/político muito irrequieto, agredindo em plena Câmara de deputados, o ministro da marinha de então, Henrique de Macedo julgado e condenado a 4 meses de prisão. Foi, enquanto ministro, um humanista, abolindo muitos castigos corporais, então existentes, e que se podem ler em registo na pedra do obelisco, que o professor da Escola Pedro Nunes, de Faro, de nome Adolfo Hausmann, de nacionalidade austríaca e radicado em Faro, soube desenhar e apresentar à apreciação dos cidadãos farenses.

O obelisco de Faro foi executado nas oficinas do mestre canteiro Tomaz Ramos, situadas na rua Miguel Bombarda. Canteiro que encheu a cidade da mais artística pedra que a cidade de Faro se pode orgulhar, em construções do início do século XX, a partir do obelisco, como as cantarias do palácio Fialho (Santo António do Alto), fachada do café Aliança, palacete Belmarço, plinto do monumento a João de Deus, palacete Guerreirinho, entre outros. Ainda Mestre Tomaz Ramos (que foi aluno da Escola Pedro Nunes) deixou, na Cidade dos Mortos (Cemitério da Esperança), um testemunho artístico funerário do maior relevo, desde o mausoléu ao diplomata Amadeu Ferreira d’Almeida, entre dezenas de esculturas religiosas, no mesmo cemitério.

Hoje, pergunto: O que têm feito as autoridades camarárias, desde sempre, sem uma lembrança desse mestre artista, que encheu a cidade das mais significativas jóias em calcário e mármores? Rigorosamente, nada.

Não podemos ignorar que todo esse desenvolvimento artístico em pedra e ferro se ficou devendo aos Mestres da Escola Pedro Nunes, atelier de desenho e artes, escola profissional e artística fundada em Faro, em 1888, em edifícios da actual rua do Município, desde o austríaco citado, do obelisco de Faro, professor Ezequiel Pereira, ao pintor e director da escola, que foi Carlos Augusto Lyster Franco.

Regressando ao monumento inaugurado em fins da monarquia. O obelisco só foi possível dado a classe industrial e das armações do atum, sediadas em Faro, sendo o grande impulsionador da obra, o italiano, radicado em Faro, Nicolau Canivari (fundador do primeiro café, na cidade, no último quartel do século XIX).

Na inauguração do obelisco de Faro, a cidade não ficou recuada no modelo artístico que o século XIX europeu deixou essas marcas nas grandes cidades.

A comissão constituída por diversas personalidades citadinas, desde o conde de Santa Maria, presidente da Câmara Municipal, ao poeta João Lúcio, comendador Ferreira Neto, passou-se à entrega do obelisco à responsabilidade da Câmara Municipal de Faro. E é nessa responsabilidade que tenho chamado a atenção dos senhores presidentes, desde Negrão Belo, Luís Coelho, José Vitorino, José Apolinário para que reparem na degradação acelerada em que o monumento se encontra: sujo, pedra consumida por falta de reparação, moldura de José Bento Ferreira d’Almeida quebrada, em risco do figurativo cair e se perder no seu arrastamento. Aquele capacete, em feno, que no início dos anos noventa, inesteticamente lhe foi colocado para ornamentação de árvore de Natal

Regressando à festa inaugural de 5 de Julho de 1910, o que se disse pela imprensa: "O Algarve" e "Distrito de Faro", consultados: "Cooperado com o inteligente director da Escola Industrial Pedro Nunes, estão hoje ali como professores Ezequiel Ferreira, o senhor Adolfo Hausmann a quem se deve o desenho que está elevado à memória de J.B.FA.

Discursou o ilustre advogado e poeta Dr. João Lúcio. Houve teatro pela companhia de Maria Falcão, com a comédia Vinte Dias À Sombra, no Theatro Circo; as três Filarmónicas da cidade, executaram a Marcha do Algarve, do maestro Serra e Sousa. Até que as brumas da noite se aproximaram, o passeio começava a iluminar-se, ao acenderem-se os milhares de balões, aí armados. João Arouca foi o decorador dos pavilhões e do recinto onde se passou a cerimónia. Rodrigues Davim, em nome da ética jornalística, não calou as grandes festas, que os políticos da mesma causa queriam contrariar:

Ide, e dizei lá fora, onde vos levar
O destino, a aventura, o vosso afecto caro,
Na harmonia feliz do vosso amado lar
As belezas da nobre e hospitaleira Faro.

Consultar "A Estatuária em Faro no Século XX" – Edição ANAIS DO MUNICÍPIO – FARO – 1993 – Páginas 93/145 – T. Neto

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