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Volvidos vários meses, foi com grande gáudio que regressei a uma sala de cinema quase deserta. E que bom foi. Tenho este vício egoísta de me deliciar com uma sala quase vazia, só para mim, por não gostar do burburinho que por vezes se gera quando estão cheias, daí que, por norma, evite as estreias.

O filme eleito foi O Pai, de Florian Zeller, tão badalado nos últimos dias, sobretudo, devido à interpretação de Anthony Hopkins no papel principal, que lhe valeu o óscar de melhor actor.

Tendencialmente, sou avesso ao que está na moda no que diz respeito a filmes, séries e livros. Gosto de deixar a poeira assentar. Neste caso, não senti essa necessidade, e fui ao cinema pouco depois da estreia. Moveram-me sobretudo duas coisas: o assunto abordado (a demência) e a classe de Anthony Hopkins, esse monstro da sétima arte, que veste a pele de um pai demente, Anthony, fazendo-nos viver a sua luta, por vezes angustiante, bem como a preocupação constante da filha, Anne, interpretada por Olivia Colman.

Falar de demência nos dias que correm pode ser mais ou menos banal, tal é a quantidade de pessoas que conhecemos, afectadas por este flagelo. Entre familiares e/ou amigos, este é um assunto que esteve ou está próximo de nós.

Nunca tinha visto um filme acerca do tema, que me tivesse levado ao cinema com tanta vontade. As expectativas eram elevadas, e após o filme, cheguei a sentir-me defraudado, tentado a relativizar o que acabara de ver. Saí inquieto e frustrado. Parecia não ter entendido nada. Mas, será que há algo a entender nesta história que não é nada linear? A meu ver, há apenas uma viagem que o próprio espectador faz na mente de Anthony, e essa é a mestria de Florian Zeller. Enquanto assistimos ao filme, somos Anthony. Somo-lo quando ele não tem uma noção temporal exacta, quando troca a cara das pessoas, quando troca pensamentos, intenções e emoções. Somos Anthony quando julgamos estar em nossa casa e não em casa da filha, ou quando notamos que tudo isto, afinal, nos pode vir à mente a partir de um quarto, sito numa clínica que Anne encontrou para o pai, antes de viajar.

O filme deixa-nos confusos, e essa é uma das suas belezas. As diferenças acontecem nos pormenores, na falta de um simples quadro na parede, num objecto que se perdeu, numa porta que afinal não dá acesso à divisão da casa que julgávamos dar. Tudo é apresentado de forma subtil, e não raras vezes, confusa.

É normal se durante o filme questionarmos as nossas faculdades interpretativas e mentais, afinal, estamos a viajar na mente de um velho demente. Mais ainda, cada espectador, está, quiçá, a fazer a experiência terrível da demência, sendo inevitável que no percurso sintamos ter perdido todas as seguranças, ao mesmo tempo que nos encontramos esvaziados das certezas que por vezes nos habitam.

No quotidiano de Anthony, muitas são as ocasiões que levam o espectador ao riso, exactamente por ele estar abstraído do mundo que lhe corre diante dos olhos, sem que dê conta. Se num momento inicial tem piada, quando as coisas se vão repetindo, cresce um sentimento de tristeza naquele que observa. É exemplo disso a procura diária pelo seu relógio de pulso, que todos os dias usa, mas nunca sabe onde está. E como é irónico que sinta necessidade de ter no pulso a representação de um tempo que já não é aquele que sente viver. Não é em vão que em determinada altura, Anthony diga que tem dois tempos: o do relógio e o da mente. Neste pormenor, transversal a todo o filme, damos conta do quão voraz é o tempo, e de quão escravos dele podemos ser.

Anthony Hopkins, que aprendi a admirar após a majestosa interpretação de Bento XVI, em Dois Papas, arrebata-nos novamente com a sua perícia. Tudo o que sai dele está carregado de arte, mas chama-me particularmente à atenção o seu olhar. Através dele, fala-nos todo o filme. Nos seus olhos contemplam-se alegrias, mas, sobretudo as angústias, por sentir que alguma coisa não está totalmente bem. Porém, a angústia maior, parece ser vivida por aqueles que o rodeiam, mormente, pela filha. Com ela sentimos a dor de ver um pai deixar de ser aquilo que era, reconhecendo que, agora, vive nele outra pessoa, habitada por uma doença contra a qual é incapaz de lutar sozinha.

A tónica colocada naqueles que cuidam, trazendo ao de cima as suas angústias e receios, tornam o filme de Florian Zeller ainda mais sumptuoso.

O Pai, não é um filme sensacionalista, arrebatador, ou de outro mundo. É um filme carregado de humanidade, que nos confronta com a debilidade humana, e convida-nos a promover cada vez mais uma cultura do cuidado, que deve brotar, em primeiro lugar, da família.

Este, é o género de filme que nos faz sair da sala em silêncio, a tentar montar o puzzle que acaba de passar diante dos nossos olhos. Não sendo um filme fácil de “montar”, mais difícil será esquecê-lo.

A compreensão de O Pai, vem com o tempo.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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