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Escrevo este texto tendo presente o testemunho que escutei na tarde do dia de hoje de D. Massimo Camisasca. Falava-nos do martírio de mais de 300 padres na Itália após a segunda guerra mundial e particularizava com o testemunho da entrega plena de um deles, Rolando Livi, recentemente beatificado.

Impressiona o que a maldade das ditaduras pode fazer a quem não pensa segundo os mesmos ideiais, especialmente a quem é capaz de viver o sobrenatural na aprendizagem terrena do que é a vida. Este jovem foi um desses. Fechado o seminário, teve de regressar a sua casa. Com os conselhos do seu bispo procurou dar a sua vida toda a Jesus sem deixar de ser um jovem normal que sorria, brincava, fazia desporto, rezava, ia à comunidade, estudava e vestia conforme era normal no seu tempo de aspirante ao sacerdócio: identificado com o hábito talar (veste clerical).

A liberdade com que o fazia desgostou os seus opressores e alegria de ser de Jesus foi cartão de viagem para a pátria eterna.

Percebeu este jovem seminarista que a vida era muito mais do que aquilo que podia ser oprimido e que a verdadeira recompensa dos nossos actos e da nossa coerência é o Senhor que dá, porque é Ele que julga, aceita e torna digno o nosso sacrifício. A consciência da sua singularidade fez com que fosse barbaramente preso por aqueles que não viam na vida o sentido de eternidade que a Fé lhe dava e garantia.

Arrancado desta vida como flor que começa a brotar, o seu sacerdócio não conseguiu florescer aos olhos humanos, mas floresceu certamente aos olhos de Deus. O que Deus nos comunica é que é possível viver sabendo que a vida não termina aqui e que com a Ressurreição, o martírio se torna fonte de esperança. É a vitória da Fé!

Hoje vivemos o “dia da Esperança” em Budapeste. Pensei logo de manhã na Paróquia de Paderne que é dedicada a nossa Senhora da esperança. Este dom e virtude alargam o coração de quem se deixa guiar pelo céu, sem pensar no futuro mas pensando no presente. Não deixemos que nos roubem à esperança (EG 68).

Já na homilia de laudes, o arcebispo de Bratislava nos exortava a viver com a certeza de que Deus nunca deixa a humanidade sem esperança. “Cristo na Eucaristia é a esperança encarnada, Ele é a nossa única esperança”. A catequese do dia esteve ao cargo do Cardeal John Onaiyekan da Nigéria que num estilo muito peculiar recorrendo ao magistério nos ensinou que a Eucaristia como fonte e cume da vida cristã é um mistério para acreditar, celebrar e viver. A Fé, a missão e o testemunho são um verdadeiro tripé para a manifestação da presença real do Senhor que alimenta a igreja e dá sentido ao nosso proceder. Só na busca de uma vida coerente somos capazes de deixar que o Senhor faça em nós a maravilha da conversão, e uma vez convertidos voltamos a casa e recebemos do perdão do Senhor a graça da vida reconciliada. Jesus não nos abandona e a nossa presença na comunidade e na Eucaristia acontece porque lá está o Cristo Total que supera quem actua em Seu nome e em Sua pessoa.

Mary Heally, uma biblista, recordou-nos que Deus faz maravilhas pelo Seu Espírito Santo derramado em nossos corações (RM 5,5) e se o pecado e o rancor nos maculam, o Senhor é maior que tudo isso e sempre nos purifica e perdoa. Vivemos um momento muito bonito dividido em três orações. Saber que pecamos e que por vezes não perdoamos é uma oportunidade para curarmos o que em nós é doença. Na Eucaristia e no diálogo apaixonado com o Senhor encontramos o caminho da nossa conversão pessoal.

A homilia da missa, presidida pelo Cardeal Arcebispo do Quito, cidade do Equador que receberá o próximo congresso eucarístico internacional, exortou-nos a uma vivência muito existencial do amor. “Amar a quem nos persegue é difícil mas é o caminho indicado por Jesus para nossa salvação (Papa Francisco). O amor aos inimigos não é opcional é algo característico da nossa vida cristã. Comungamos com o irmão que não nos ama… O Senhor nos perguntará que fizemos com o irmão? Não há nada mais grande e mais fecundo que o amor”.

Entre outros testemunhos recebemos ainda o de D. Joseph Pamplany, bispo auxiliar de Tellicherry (Índia). Para a cultura do desespero, a Eucaristia é a resposta. “A esperança não prevê o futuro ela olha o presente na gestão que dele fazemos”, por isso a Eucaristia é esperança na escuridão. “No momento mais escuro da Sua noite, Jesus faz-nos a entrega da Sua vida: Isto é o Meu corpo” (Lc 22, 19). “A esperança é eclesial, por isso em cada martírio nós vemos a celebração da Eucaristia”. Como não contemplar tudo isto à luz da Fé e da graça que é ser de Jesus?

Somos uns felizardos! Apesar das nossas noites, em dia luminoso de quinta-feira, dia do sacerdócio por excelência, percebemos como o Senhor nos continua a iluminar em cada noite e a pedir que O sirvamos apesar da nossa incapacidade.
Que assim seja sempre!

Padre Pedro Manuel, delegado da Diocese do Algarve
ao CEI – Budapeste 2020 (em 2021)

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