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Todos nós já falámos imensas vezes do que se passou nos supermercados Pingo Doce no passado dia 1 de maio. Vergonha?!… Apelo ao consumismo?!… Retrato da sociedade consumista em que vivemos?!… Retrato da pobreza material e cultural em que Portugal vive?!…

São várias as opiniões sobre este assunto, provenientes de diferentes quadrantes ideológicos e de áreas científicas distintas. Mas afinal, o que aconteceu efetivamente neste dia, no "Sítio do costume" (ou do consumo)?

Os trabalhadores do Pingo Doce, ao contrário do que anunciaram os Sindicatos, não saíram prejudicados. Quem não quer ganhar 500% mais, trabalhando no dia 1 de maio? Penso que ninguém se importa. E perante um bónus destes, acredito que houve trabalhadores que disseram mesmo para si próprios: afinal o dia 1 de maio, se é dia do trabalhador, só pode ser dedicado ao trabalho…Certo, certo, é que ficaram contentes, pensando no cheque mais gordinho que vão receber no final do mês.

Por sua vez, os compradores, que suportaram os empurrões e as longas filas de espera dentro supermercados, respiram fundo e pensam, agora, onde poderão aplicar o dinheiro que pouparam com as compras do mês (ou de meses!).

O Pingo Doce, por sua vez, vendeu produtos a metade do preço, mas ganhou tempo em prime time na abertura dos vários blocos noticiosos, num dia onde habitualmente as notícias se centralizam em manifestações sindicais (que lhes seriam sempre desfavoráveis, porque iriam abordar a "exploração dos trabalhadores, que trabalharam nos feriados"). O dinheiro que "perdeu" com os 50% de desconto não daria nunca para pagar nem metade da publicidade que fez com as manchetes e notícias de abertura de televisões e rádios, para já não falar dos sketches humorísticos, dos posts em blogues e páginas do facebook, dos twites, dos artigos de opinião e comentários…

Provavelmente, os únicos que perderam mesmo foram os produtores nacionais, que viram o seu trabalho e seus produtos desvalorizados, mas isso dava outro artigo para este espaço de opinião.

Eu, no entanto, acredito firmemente que o Grupo Jerónimo Martins, proprietário da lojas Pingo Doce, fez mais pelo fim do feriado (quase sagrado) do "Dia do Trabalhador", do que todos os acordos de concertação social, ou de empresa e do que todos os acordos que o governo possa fazer com a Santa Sé.

Querem acabar com os feriados? É fácil. Basta que o Grupo Sonae (Continente), ou o Grupo Auchan (Pão de Açúcar), ou todos eles em conjunto, façam campanhas de 50% de descontos, à semelhança do que fez o Grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce). Não haverá feriado que resista, estou certo!

A mim é-me indiferente. Poderão existir campanhas destas, em dias feriados, ou noutros. Apenas fico a pensar no valor que atribuímos a tudo o que nos rodeia: as pessoas, enquanto força de trabalho e progresso; as instituições, enquanto forças criadoras de ordem e de justiça; os acontecimentos, as datas, enquanto sinais do tempo e da história, matriz que nos define e nos dá substância… Fico a pensar precisamente nos valores…

Valeu a pena?!… Não sei.

Miguel Neto

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