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No passado dia 5 de Outubro ocorreu o centenário da implantação da República. Apesar da crise económico-financeira e das graves dificuldades sociais que o País atravessa, os nossos governantes encontraram pretexto para grandes e desproporcionados festejos. Eles queriam Portugal no pelotão da frente da União Europeia, na locomotiva do euro e realmente já conseguiram esse feito notável de colocar Portugal com a taxa de IVA mais elevada da Europa, 23%! Somos os primeiros, vamos à frente, há que festejar! Foguetes, bandas de música, fogos de artificio, espectáculos de luz e som, exposições, sessões solenes, discursos, cerimónias, fanfarras e desfiles militares, é tudo por conta do "Zé povinho", que pagará tudo isso e muito mais, como por exemplo a cimeira da NATO que ainda este mês terá lugar em Lisboa e outras cimeiras e congressos, para que os nossos governantes possam brincar aos "grandes do mundo", possam iludir-se com aquilo a que eles chamam de "grandes desígnios nacionais".

Nos tempos da monarquia, um dos paladinos da luta republicana, Rafael Bordalo Pinheiro, criou a conhecida figura do "Zé povinho", para com a ironia própria dos artistas mostrar que era o povo que tudo pagava para que os membros da realeza e afins, vivessem à "grande e à francesa", por conta dos célebres "adiantamentos à Casa Real". Cem anos depois, já "em plena República" a figura do "Zé povinho" continua plenamente actual, o povo continua a pagar cada vez mais impostos para cobrir os abusos e os desmandos das classes dirigentes e se antigamente o rei e os seus mordomos viviam "por conta" dos "adiantamentos à Casa Real", agora os nossos governantes continuam iguaizinhos e até criaram um "imposto especial "por conta" do IRC". Andam é todos a viver à nossa conta!

Quando terminou a EXPO 98, recordo-me de ter ouvido um governante dizer, que a partir de então os portugueses se iriam tornar muito mais exigentes, já não iriam aceitar mais "gato por lebre", que iriam passar a exigir serviços de qualidade, da qualidade que lhes tinha sido servida na EXPO. Ouvi e pensei, está muito bem, que bom gosto tem este Senhor, mas isso tem custos e quem é que vai pagar esses custos? Naturalmente que quem paga esses custos, os custos das megalomanias da classe política, são os contribuintes, são os consumidores, que brevemente pagarão o IVA, o imposto sobre o consumo mais elevado da Europa! Isto significa que em cada cem euros de consumo dos bens taxados a 23%, quase um quarto do nosso dinheiro, irá direitinho para os cofres do Estado. E se estas medidas não resultarem, esperem pela volta que da próxima vai mesmo para os 25%, que é para serem contas certas!

Os verdadeiros desígnios nacionais de um governo que se preze de servir bem a rés pública, deveriam ser o fomento económico e empresarial, a criação de riqueza e de postos de trabalho, um sistema nacional de saúde de qualidade, reformas decentes para os aposentados, uma justa redistribuição do rendimento e não uma economia onde se acentuam as desigualdades sociais e se esmaga e proletariza a classe média.

Os nossos políticos de há cem anos foram muito hábeis a resolver a questão do regime, substituindo o regime monárquico pelo regime republicano, embora tenham sido muito pouco hábeis em consolidar e manter a República, criando artificial e desnecessariamente uma questão religiosa e descurando irresponsavelmente a questão social. Só que hoje a questão do regime está ultrapassada e já não se coloca. A questão agora é outra! Agora já não se trata de uma questão política ou institucional, agora trata-se de uma coisa muito mais séria e também mais difícil de atingir, trata-se de resolver de uma vez por todas a questão social, aquela que verdadeiramente interessa ao povo. Porque a I República a descurou, caiu! Será que a III República vai ter o mesmo destino ou vamos encontrar dirigentes capazes de resolver a questão social?

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