Olhamos para a Venezuela e o coração aperta. Não é apenas a geografia de um país que vemos no mapa, mas a topografia de um sofrimento que se arrasta, uma ferida aberta no flanco da América Latina, que o mundo insiste em tratar com sal em vez de bálsamo. As recentes palavras do Papa Leão XIV sobre a situação venezuelana ressoam, não como um simples apelo diplomático, mas como um diagnóstico espiritual de uma doença global: a obsessão pela eficácia a qualquer custo.

O Santo Padre pede que o “bem do amado povo venezuelano prevaleça acima de qualquer outra consideração”. Parece óbvio, mas é revolucionário. Porque a história recente daquele país e as intervenções externas — nomeadamente as sanções e manobras políticas dos Estados Unidos e seus aliados — foram muitas vezes vendidas sob a bandeira da “libertação” e da “democracia”. E aqui entramos no terreno pantanoso que Santo Inácio de Loyola descreveu com precisão cirúrgica nos seus Exercícios Espirituais: o mal que se apresenta sub specie boni, sob a aparência de bem.

Santo Inácio alertava que o inimigo da natureza humana raramente nos tenta com o mal evidente; ele seduz-nos com um “bem” aparente, uma luz falsa que, no fim, nos deixa desolados. Quantas vezes ouvimos que o estrangulamento económico era um “mal necessário” para forçar uma mudança de regime que traria prosperidade? Esta lógica utilitarista, onde os fins justificam os meios, ignora a realidade crua: quem paga a fatura não são os governantes entrincheirados nos seus palácios, mas os mais pobres, aqueles a quem o Papa pede “especial atenção”.

A “economia distorcida” que Leão XIV denuncia, aquela que “tenta tirar proveito de tudo”, não se limita ao mercado de consumo; ela infiltrou-se na geopolítica. Transformámos a soberania das nações num produto transacionável e o sofrimento humano numa alavanca de negociação. Ao tentar impor uma versão de “ordem” através da asfixia, o Ocidente pode ter caído na armadilha inaciana: acreditando combater um tirano, acabou por tiranizar um povo inteiro através da fome e da falta de medicamentos. O “bem” da democracia liberal, quando imposto sem respeito pela soberania e pelo tempo próprio de cada cultura, torna-se uma caricatura grotesca de si mesmo.

O Papa questiona-se, após o Jubileu: estaremos capacitados para ver no “distante um vizinho”? No caso da Venezuela, falhámos redondamente. Vimos no venezuelano um peão num xadrez ideológico, não um “companheiro de viagem”. A consequência global desta hubris intervencionista é terrível: a erosão da confiança no direito internacional e a normalização da miséria como arma de guerra. Se os meios são corruptos — a fome, o bloqueio, a desestabilização —, o fim jamais será a paz verdadeira. Será, no máximo, uma pacificação armada, um silêncio de cemitério.

A verdadeira soberania, como lembra o Pontífice, exige o “respeito pelos direitos humanos e civis de cada um”. Isto aplica-se tanto ao governo de Caracas, que deve garantir o Estado de direito e a concórdia, quanto às potências estrangeiras, que devem cessar a hipocrisia de destruir uma economia, para depois se oferecerem como salvadores.

A paz começa dentro ou não começa. E a justiça começa por desmascarar o mal que se veste de anjo de luz. Que a intercessão de Nossa Senhora de Coromoto nos ajude a distinguir entre a verdadeira ajuda fraterna e a ingerência destrutiva, para que o futuro da Venezuela seja construído pelas mãos dos seus filhos e não desenhado em gabinetes distantes, que desconhecem a dor de quem não tem pão à mesa.