Pub

No passado dia 4, celebrou-se o 1º Dia Internacional da Fraternidade Humana, estabelecido pela ONU neste dia, para fazer coincidir tal celebração com a assinatura, em 4 de Fevereiro de 2019, do “Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum”, em Abu Dhabi, assinado pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb.

Falar acerca da fraternidade humana é falar do cuidado pelo outro, que se pauta pelo amor e pela compaixão, compreendendo que, tal como disse Francisco no discurso proferido na celebração da efeméride, “ou somos irmãos, ou tudo se desmorona”, porque não podemos viver olhando os outros com indiferença. Enquanto não reconhecer no outro um irmão que partilha comigo a vida e a sua humanidade, enquanto não lhe der o meu coração, liberto de preconceitos, subterfúgios e quaisquer outros interesses, estou a contribuir para uma sociedade narcisista onde cada um olha para si mesmo e para os próprios interesses, vendo o outro como um inimigo, um concorrente, uma ameaça.

Os dias que vivemos são um bom e triste exemplo da falta de fraternidade patente no mundo e na nossa sociedade, quando nos vemos a braços com uma guerra difícil de travar. Muitos se têm questionado se sairemos daqui melhores pessoas? Homens e mulheres com maior sentido de justiça, solidariedade, caridade, compaixão e compreensão? Muitas são também as respostas e, infelizmente, parece-me que a humanidade aprenderá menos do que aquilo que devia.

A grande luta para impedir contágios e mortes, fruto deste maldito vírus, fez com que se suspirasse por uma vacina que trouxesse esperança a este combate desigual. Ela surgiu. Chegou também a Portugal e começou a ser administrada, com pompa e circunstância, com directos televisivos para assinalar o feito, e demais chamadas de atenção para que estes momentos históricos não fossem apagados da memória presente e futura. Este processo, foi-se desenvolvendo com base no plano de vacinação, bem detalhado e devidamente explicado no papel, à boa moda portuguesa. Depois do êxtase inicial da vacinação, aqui e ali, as notícias mudam de rumo e passam a mostrar-nos as trapalhadas diárias de todo este processo, onde muitos procuram toda a excepção e mais alguma para que a vacina lhes chegue ao corpinho. É o chamado chico-espertismo, também conhecido por “nacional-porreirismo”, que é de uso habitual neste rectângulo à beira-mar plantado. É ver o filho/a deste/a ou daquele/a que tem poder, e que até trabalha num gabinete qualquer, mas é considerado prioritário na vacinação; é olhar e ver por esse país fora a série de presidentes de câmara a serem vacinados sem motivo aparente; é ver, no fundo, quem tem algum tipo de poder, a não se importar de contornar o que está estabelecido, mas coitadinhos, afinal, foi só uma vacina que sobrou e que tomaram para não se estragar. Seria uma pena que assim fosse, de facto. Porém, nunca ouvi falar de nenhum sem-abrigo que tenha sido vacinado por pertencer ao grupo dos desprotegidos. Muito menos constatei que algum tenha recebido uma vacina porque sobrou. Porém, todos os dias aparece alguém que recebeu a vacina, mas, atenção, foi só para que não se perdesse mais uma. Concluindo, é uma confusão total, um salve-se quem puder, enquanto inúmeros profissionais de saúde, bombeiros, e tantos outros que estão verdadeiramente a prestar cuidados aos doentes, continuam por vacinar. Mas atenção, o problema não está em quem recebe a vacina para que ela não se estrague. Evidentemente é preferível que alguém a tome, ao invés de se perder. O problema é estrutural e está no modo como se vão concebendo estes planos e estratégias carregados de desorientação, que não são capazes de indicar alguém prioritário, que ainda não tenha sido vacinado, para poder receber a tal vacina que “sobrou”.

Se dúvidas existissem de quão mal vai todo este processo, com tantos e tantas que ultrapassam tudo e todos para receberem uma vacina que não é sua, elas ficaram dissipadas quando Francisco Ramos, que havia sido nomeado coordenador do plano nacional de vacinação da covid-19, se demitiu por “irregularidades” encontradas no processo de selecção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Notícias do género passaram a ser diárias, mostrando que a pandemia não operou milagres em ninguém.

Mais do que nunca necessitamos de viver e de trabalhar na construção de uma profunda fraternidade entre todos, porque só assim conseguiremos compreender que as necessidades do outro são também as nossas, porém, não vale tudo para as satisfazer. Não posso nem devo deixar ninguém para trás, porque quem ama, acompanha e espera.

“Fraternidade quer dizer mão estendida, quer dizer respeito, quer dizer escutar com o coração aberto”, pois “um mundo sem irmãos é um mundo de inimigos”, como disse Francisco no discurso do 1º Dia Internacional da Fraternidade Humana.

A pergunta do Senhor a Caim continua a estar plena de sentido: “Onde está o teu irmão?” (Cf. Gn 4,9). Ele fá-la hoje a cada um de nós. Continuaremos a dizer, como Caim, que não sabemos, que não somos guardas do nosso irmão que clama por compaixão e cuidado? Ou seremos capazes de o encontrar em cada pessoa que a sociedade mata, porque ignora e abandona tantos e tantas à sua sorte?

Mais do que nunca precisamos de nos (re)humanizar, contribuindo para uma sociedade que cuide ao invés de descartar, que acolha todos em vez de selecionar.

Como li por estes dias, algures no mundo virtual, “é necessário atingirmos a humanidade de grupo”. Deixemo-nos infectar pelo vírus da humanidade.

O autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico

Pub