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Os símbolos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) peregrinaram na diocese do Algarve durante o último mês. A Cruz e o ícone de Nossa Senhora, passaram pelas mãos de centenas de jovens algarvios. Muitos foram os olhares que descansaram e se detiveram nestas duas peças. Olhares felizes, carregados de esperança, projectos e sonhos, reflexo de vidas que foram depositadas junto destes símbolos, através de um olhar, de um toque ou de uma prece, deram forma a uma peregrinação carregada de ternura e de esperança.

A Escola Básica João de Deus, em Messines, acolheu também estes símbolos por pouco mais de 24h (17-19 de Novembro). Tudo foi organizado no âmbito da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), com o intuito de envolver a comunidade escolar. Correu tudo muitíssimo bem, e o agrado foi geral. Todavia, não é isso que quero realçar, nem me parece o mais importante.

Enquanto professor naquela escola, o objectivo foi claro desde o início: proporcionar a todos quantos lá estivessem, um momento de encontro com a Cruz e o ícone, tão significativos para os cristãos, e para a mensagem de paz que a Jornada Mundial da Juventude é portadora. Não se pretendeu catequizar ninguém (nem tal aconteceu, felizmente). Quis-se que a escola experimentasse também um pouco da alegria que estes símbolos transportam consigo, exalando o perfume da esperança de tantos e tantas que com eles se cruzam, interrogando-se sobre o sentido profundo das suas vidas.

Esta presença na escola quis ser uma oferta aberta a todos. De que tipo? De que qualidade? Como cada qual desejou. Somente isso. Cada pessoa que colocou o seu olhar nos símbolos da JMJ, fê-lo com as mais variadas intenções ou motivações. Não importam quais. Importa que o tenha feito.

Na recepção que realizámos na tarde do dia 17, disse aos alunos que aquele era um momento histórico, e que era preciso fazê-lo valer a pena, havendo uma oportunidade de ouro para, independentemente da fé de cada um, ou, da não existência da mesma, nos podermos interrogar sobre o sentido da vida e do rumo que lhe queremos dar.

Apesar de tudo ter decorrido com muita alegria e calma, deixando-me naturalmente satisfeito, houve um episódio que não esquecerei. Após a colocação da Cruz e do ícone nos respectivos lugares, tive aula com uma turma de I ciclo, que levei a visitar os símbolos. Após uma breve explicação, deixei-os livres para tocarem, apreciarem, questionarem e deixarem mensagens no livro que acompanhou esta peregrinação. Durante esses minutos, três alunos aproximam-se do ícone de Nossa Senhora com o Menino ao colo, com grande seriedade, e olham-no com toda a calma do mundo. Viu-se isso nos seus olhos que a máscara não tapa e na postura tranquila. Porém, uma das crianças, estendeu a mão sobre o ícone e com uma ternura profundamente bela e comovente, acariciou o Menino Jesus.

Nesta imagem, pude resumir toda a estadia destes símbolos na escola, pois a primeira turma a visitá-los, teve uma aluna que, através de um gesto espontâneo mostrou o que se pretendia com este acontecimento – que fosse um momento de paz, de esperança, de tolerância e de encontro ternurento.

Aquela menina de 6/7 anos, talvez não teve consciência do seu gesto, nem do alcance do mesmo. Contudo, não pude ficar indiferente. Na sua mão que acariciava o rosto do Menino, estava certamente a mão de todos os que O querem tocar de algum jeito, com simplicidade e espontaneidade.

Este episódio só aconteceu porque os alunos tiveram autonomia para se aproximarem da Cruz e do ícone, sem qualquer proibição de lhes tocar. Foi da liberdade que brotou o gesto, e isto faz-me pensar nas vezes em que podemos ser entrave para aqueles que se querem aproximar de Deus ou das realidades frequentadas por nós. Oxalá possamos ser ponte que facilita o encontro, e que, ao levar à outra margem se abram caminhos de liberdade e tolerância para todos.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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