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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O padre José Manuel Pereira de Almeida veio no passado sábado ao Algarve defender que o “central” no apoio na doença ou na fase terminal é o “encontro pessoal com quem sofre”. “Como o escutamos? Como o acolhemos?”, interrogou, exortando a “estar com quem sofre, não para lhe dar, para fazer, para lhe ensinar coisas, mas para, como aluno, aprender dele a sua vida, a sua história, o seu horizonte de sentido”.

O sacerdote, que também é vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e foi médico no IPO, falava à noite no Centro Paroquial da Matriz de Portimão, encerrando o ciclo de conferências promovido pela Cáritas Diocesana do Algarve para assinalar os seus 62 anos e os 50 do seu Centro Infantil.

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O conferencista destacou que “as coisas que as pessoas dizem nessa altura são muito importantes acerca da sua compreensão sobre a história e sobre a vida”. “É esse horizonte que me importa saber acolher e ouvir, não para convencer e adotar o meu, mas para recolher com cuidado com o que lidamos com o que é precioso, delicado e frágil”, acrescentou.

Na sua reflexão sobre o tema “Cuidar do outro (quando frágil)”, o padre José Manuel Pereira de Almeida desafiou assim a um “sentido humano do acompanhamento dos mais frágeis”, ou seja, ao “acompanhamento cuidado do morrer, protegendo a vida até ao fim”, “não a acelerando”, mas também “não a esticando para fazer sofrer mais”.

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O sacerdote lembrou assim que, no que respeita ao “cuidar do outro (quando frágil)”, “distinguem-se os meios proporcionados e os desproporcionados” e que entre estes últimos, para além da eutanásia e na posição oposta, estão também o “encarniçamento” ou a “obstinação terapêutica”. O orador disse que “acompanhar bem a morte” implica tanto não a “apressar”, como não querer “estupidamente” “esticar” a vida “numa situação em que já não há tratamento possível”.

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Relativamente à discussão sobre a eutanásia, considerou que a dignidade humana não deve ser argumento por ser usado tanto por quem é contra e como por quem é a favor daquela prática. O padre José Manuel Pereira de Almeida aludiu assim à necessidade de um “debate que ajude a compreender o que é que se passa” relativamente àquela problemática e não que sirva para “cerrar fileiras” nas diferentes posições em relação à mesma.

O antigo médico acrescentou ainda que “a afirmação de autossuficiência pode ser também um pedido de ajuda” e que, “quando as pessoas dizem «quero morrer» há que perceber o que é que estão a dizer”. “Por exemplo, [quando dizem] «não quero viver a vida», pode ser «não quero viver a vida assim»”, sustentou.

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O sacerdote lembrou também que atentar contra vida do próximo passa igualmente pelas ações diárias. “Tanto quanto de mim depende faço viver, ou, com as minhas decisões, vou ferindo o outro, mesmo sem armas, até deixá-lo «morrer»?”, questionou, advertindo que “isto pode ser feito de modo muito subtil”. “Por exemplo, posso ignorá-lo”, exemplificou, lembrando que quem não se torna “responsável pela vida do outro” passa a ser “irresponsável”. “A compreensão também vai mudando a nossa maneira de sermos responsáveis. Quando percebemos melhor, tornamo-nos objetivamente mais responsáveis”, acrescentou.

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O padre José Manuel Pereira de Almeida defendeu ainda ser “possível viver humanamente” no sofrimento. “Colocando os olhos em Jesus percebemos que o sofrimento não é desprovido de significado. Mas não é por causa do sofrimento, é por causa da vida humana. A desumanidade só nos faz mal e se o sofrimento é desumano, só nos atrapalha a existência”, acrescentou.

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