Pub
© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

As XIII Jornadas de Ação Sóciocaritativa, promovidas no último sábado pela Diocese do Algarve sob o tema “Família, crise e solidariedade”, concluíram-se com um painel temático, intitulado “O rosto da caridade”, que incidiu sobre a realidade dos idosos, das crianças e jovens em risco e da infância.

Na iniciativa, organizada pela Caritas Diocesana do Algarve no Centro Pastoral e Social de Ferragudo em que participaram 97 pessoas de toda a região algarvia, o diácono Albino Martins, presidente dos Centros Paroquiais de Cachopo, Martim Longo e Vaqueiros, advertiu que as instituições ali representadas “nunca poderão ser uma estrutura à parte das paróquias”. “Sabemos que essas instituições são dirigidas por pessoas com sensibilidade social e dinamismo eclesial, confrontando-se com os novos desafios e caminhando, permanentemente, na fidelidade à doutrina do magistério”, sustentou, aludindo a uma “caridade responsável e impulsionadora de novos caminhos de construção de uma sociedade onde o amor seja o rosto e o fundamento, amor alicerçado nos valores perenes do evangelho” e à “renovação de horizontes de novas metodologias, cooperação em novos recursos, nova atitude e empenho generoso”.

“Se numa comunidade cristã falta o empenho contra a pobreza, contra a desigualdade, contra a injustiça; se não se considera o serviço da caridade como parte constitutiva da evangelização e da pastoral de toda a comunidade, o serviço falha, a evangelização converte-se em palavra vazia, a liturgia converte-se em culto ao culto, como expressão do egoísmo pseudorreligioso”, alertou.

© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

Aquele responsável reconheceu que “ao Estado pode interessar a exigência e o rigor da observância das normas que regem estes equipamentos”, mas evidenciou que a posição das instituições deve ser outra. “A nós interessa-nos também qualificar e iluminar o nosso serviço com carinho e amor de modo que o outro não sofra ou sofra menos. É importante que a organização em si não mate o serviço, que as estruturas não reduzam as pessoas a números, que o funcionalismo desumanize os serviços, que a falta de confiança, profissional humana e cristã de alguns funcionários desclassifique da qualidade dos serviços que presta e da missão evangelizadora que possui”, afirmou, exortando à aposta na “formação” e “avaliação contínua”.

O diácono Albino Martins apelou a uma “profunda mudança da atitude, valorizando a dignidade e potencialidade dos anciãos”. “Uma sociedade que não ama nem respeita os seus mais velhos é uma sociedade desumanizada, sem alma e sem futuro”, advertiu, considerando que “saborear a alegria de viver, ainda que com as limitações que a idade impõe, não é possível sem estar rodeado de um ambiente amor e gratidão, de apreço e de estima” e que “as muitas iniciativas e soluções de apoio social que se vão multiplicando não podem dispensar a família do amor aos seus pais e avós”.

“Os idosos têm o direito de ser felizes no entardecer da vida, pois foram ao longo dela, servidores da comunidade, consumiram as suas energias em prol do progresso das terras onde viveram”, evidenciou, concluindo com a apresentação do vídeo abaixo disponibilizado que se tornou viral na internet.

A irmã Maria Antonieta Costa e a diretora técnica Cláudia Bragança do Centro de Bem-Estar Social Nossa Senhora de Fátima, em Olhão, obra que acolhe 30 crianças e jovens em risco entre os 3 e os 18/21 anos, enviadas pelas comissões de proteção de menores ou pelos tribunais de menores, explicaram que, ao longo dos tempos, “os paradigmas têm alterado”. “Enquanto antigamente eram as famílias pobres que vinham pedir colaboração à instituição. Hoje em dia, fruto da crise e da desestruturação de muitas famílias, o que nos tem chegado são crianças e jovens cada vez mais desestruturados, cada vez mais traumatizados. Vêm com problemas de violência doméstica, de alcoolismo, toxicodependência, maus tratos físicos e outros”, testemunhou Cláudia Bragança.

Aquela técnica defendeu ser “fundamental” “especializar as instituições no sentido de uma intervenção, cada vez mais, individualizada”. “O que se pretende é que a instituição não seja um depósito de crianças. Tentamos, no mais curto espaço de tempo, que as crianças regressem às suas famílias. Procuramos que as famílias continuem presentes na vida das suas filhas”, explicou, aludindo à importância da criação de “projetos de vida” que passem pela reunificação familiar, a opção prioritária, pela adoção ou pela autonomização.

Aquela responsável recordou, a propósito, que “toda a criança tem direito a uma família: quando não a biológica, a adotiva”.

Susana Coelho, educadora de infância do Centro Infantil da Caritas do Algarve, aludindo à crise atual disse haver “um grande impacto” nas famílias se relacionam com a instituição. “Chegam-nos crianças, tristes, traumatizadas, deprimidas, isoladas, egocêntricas e que, em todo o seu comportamento, manifestam um desequilíbrio”, lamentou.

A educadora disse que a aposta para fazer face a esta realidade passa pela “educação com amor” e pela “proximidade com as famílias” que inclui o envolvimento destas. “Não somos melhores que ninguém. Apenas queremos distinguir-nos pela intencionalidade com que o fazemos: um amor sem limites, que tem um rosto e que sabemos qual é o seu nome. Apostamos numa relação de confiança, no diálogo, na partilha, na troca de informações e na compreensão”, disse, acrescentando: “tentamos sublinhar sempre a pedagogia do coração para que se construa a relação de pessoa- a-pessoa e destas com Jesus Cristo”.

Pub