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Não gosto de gravatas! Aliás, acho verdadeiramente estúpido o uso de gravatas! Qual a utilidade de uma gravata? Para que serve uma gravata no vestuário de qualquer pessoa. Há vestuário, com mais tecido, e muitas vezes mais acessível do ponto de vista económico, que serve, ora para nos proteger do frio, ora para tapar algumas partes mais íntimas do nosso corpo. A gravata não serve para nada disso! Sendo apenas um bocado de tecido, por vezes de cores bem berrantes e parvas, que alimenta a nossa vaidade, mostrando o pseudo-estatuto social que temos. Em muitos casos esse bocado de tecido custa bem mais caro que muitos artigos essenciais para a nossa existência como ser humanos. Penso, que pouca gente conhece a origem da gravata. Atribui-se a introdução da gravata aos soldados croatas a serviço da França durante a guerra dos trinta anos. Os pedaços de tecidos, atados ao pescoço dos soldados com distintivos laços, teriam causado espanto em toda a sociedade parisiense. Tal acessório era usado como distintivo militar pelos croatas, sendo de tecido rústico para os soldados e de algodão ou seda para os superiores. Os franceses, logo se encantaram com esse adereço elegante e desconhecido, a que chamaram de "cravat", que significa croata. O próprio rei Luís XIV ordenou que seu alfaiate particular criasse uma peça semelhante ao dos croatas e que a incorporasse aos trajes reais. E a partir daí começou o martírio das gravatas como algo que se impõe aos homens credíveis e profissionais distintos. Como se o nosso bom nome e o nosso profissionalismo depende-se de um bocado de tecido parvamente atado ao pescoço!

Pois bem, parece que a jovem e recente Ministra da Agricultura e Ambiente, Assunção Cristas, percebeu que mais valia acabar com o uso de gravatas no seu ministério e poupar na fatura da eletricidade, através de um uso limitado do ar condicionado. Percebeu que essa ignóbil peça de vestuário, para além de não fazer falta nenhuma, limitava os funcionários do seu ministério neste período de tórrido calor, obrigando-os a colocar os aparelhos de ar condicionado a temperaturas mais baixas para assim conseguirem criar um ambiente de trabalho fresco e de nós de gravatas bem apertadinhos. Segundo informações o valor energético a poupar ainda não está quantificado. Para já, Assunção Cristas apenas estima que a nova medida permita "poupar emissões de CO2 equivalentes ao emitido por dia pelos veículos ligeiros numa cidade média como Aveiro". Esta medida foi inspirada em boas práticas internacionais, nomeadamente na "Cool Biz" em vigor no Japão desde 2005. A ministra disse que esta a medida decorre do objetivo definido no Programa do Governo de reduzir o consumo de energia na administração pública em 30%. Para Assunção Cristas não é até uma questão de custo-benefício, porque tudo é benefício, já que os homens andam muito mais confortáveis e as mulheres menos desconfortáveis, em salas não tão geladas como as que experimentou noutros gabinetes e no Parlamento devido ao uso de gravata, esse malfadado e inútil bocado de tecido. A medida insere-se na prioridade dada à eficiência energética e à aposta na economia de baixo carbono, a que se juntam o uso preferencial de meios eletrónicos para as comunicações entre gabinetes e serviços e a indicação para os equipamentos eletrónicos serem desligados, em vez de mantidos em stand by.

No entanto, uma coisa é garantida, a eficácia e o profissionalismo dos funcionários do Ministério da Agricultura e Ambiente não é posta em causa, muito menos balizada, pela uso ou pela ausência de uma qualquer gravata no seu local de trabalho.

P.S. Com este artigo, encerro este espaço de reflexão quinzenal na "Folha do Domingo". Foi um espaço de responsabilidade exclusivamente pessoal, e onde apresentei a minha visão individual dos acontecimentos e das realidades que me rodeiam, com algum sentido de humor. Muito obrigado a todos os que leram o que eu escrevi! Até uma próxima oportunidade! Boas férias!

Miguel Neto
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