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Os últimos tempos têm sido difíceis para a nossa Igreja Católica e esta foi mesmo uma Páscoa marcada por essa circunstância. Poucos dias antes do início da Semana Santa, o Papa dirigiu uma Carta à Igreja da Irlanda, por causa dos escândalos sexuais provocados por alguns membros do clero irlandês. Já antes tinham sido denunciadas situações análogas nos Estados Unidos da América, no Canadá e na Austrália, depois surgiram casos no Brasil, na Alemanha e na Áustria, tendo a Conferência Episcopal Alemã criado uma linha telefónica para receber denúncias por parte daqueles que se sintam vítimas de abusos. Os casos que agora estão a vir à luz do dia constituem uma vergonha para todos os discípulos de Jesus, um contra-testemunho, uma negação absoluta dos valores do Evangelho, um escândalo que afecta não só a imagem da Igreja, mas principalmente a sua autoridade para denunciar profeticamente as injustiças do nosso tempo.

É pois este um assunto incontornável, que não podemos ignorar e que teremos que enfrentar com coragem, com verdade, honestidade e coerência intelectual e acima de tudo, evitando cair na tentação e no erro, em que alguns já caíram, de ensaiar uma defesa “corporativa” do clero, ou pior do que isso, enquadrar os acontecimentos no âmbito de uma grande campanha mediática contra a Igreja, com recurso a infelizes comparações, que depois têm que ser corrigidas e retratadas. Nisso estou inteiramente de acordo com o Bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira: Tal defesa é como que “um tiro no próprio pé”. Haja serenidade e bom senso!

Que alguns, que nunca aceitaram bem a eleição do Papa Bento XVI se estejam a servir da presente situação para o atacarem e o envolverem nos escândalos, isso parece evidente, mas tal operação é tão grosseira e infundada que pode ser bem desmontada com relativa facilidade. Porém, confundir esses excessos oportunistas com uma campanha contra a Igreja é cair noutro extremo. Cada um na vida, cumpre o seu papel e a comunicação social cumpre o seu ao divulgar os casos e ao trazê-los à luz do dia. Devemos respeitá-la e compreender que realiza a sua missão de informar. Dito isto, é preciso também dizer, que aqueles que são acusados da prática desses abusos sexuais, são também eles, pessoas humanas, cidadãos iguais aos outros, cidadãos com direitos: com o direito à presunção de inocência até trânsito em julgado de uma sentença de condenação; com direito a se defenderem nas sedes judiciais próprias, civis e eclesiásticas e que não é suficiente o seu nome surgir nas notícias dos jornais e das televisões para logo serem considerados culpados. É necessário que as acusações que lhes são feitas sejam efectivamente provadas nas instâncias competentes. A comunicação social tem a nobre missão de informar e divulgar os acontecimentos, mas não lhe compete acusar e muito menos julgar e condenar.

Quanto à questão de fundo, apenas posso consignar aqui o meu testemunho pessoal. Tenho cinquenta e um anos. Desde os seis que frequento a Igreja, primeiro na catequese da infância; Passei na adolescência pelo Seminário do Bom Pastor em Ermesinde; Depois, na juventude, como acólito e catequista na Paróquia de São Salvador de Matosinhos e ainda como aluno do Instituto de Ciências Humanas e Teológicas do Porto. Vim para o Algarve, onde me inseri na vida da Igreja local. Pelas funções que desempenho, tenho trabalhado com muitos Padres. Por vezes reúno sozinho com eles nas suas casas, faço com alguns longas viagens de trabalho ou de lazer, tomo refeições e compartilho as mesmas casas de hóspedes, ou seja tenho privado muitas e variadas vezes sozinho com Padres, em criança, em jovem e agora em adulto. Nunca, mas absolutamente nunca, nenhum sacerdote ou religioso, nem na Diocese do Porto, nem na Diocese do Algarve, teve para comigo a menor atitude de assédio sexual, a menor insinuação, o que quer que fosse relacionado com tal matéria. É o meu testemunho. Vale o que vale. Outros noutras paragens e circunstâncias tiveram, infelizmente, experiências diferentes. Merecem ser ouvidos. Merecem ser ajudados e ressarcidos por quem os lesou. Esses que foram abusados, também são membros da Igreja, também são baptizados, também são pessoas, também merecem que os responsáveis da Igreja, se preocupem com eles, os ouçam, os confortem, os ajudem a superar os traumas. A carta do Santo Padre à Igreja da Irlanda é um documento que nos orienta nos critérios a adoptar para lidar com esta situação. Vamos todos, como Igreja, mesmo os que estamos inocentes, sofrer muito, por causa dos pecados de alguns e dos erros de outros, que encobriram com medo do escândalo. Que isso não afecte nem diminua a nossa fé em Cristo. Traidores, sempre houve na Igreja, desde os princípios, desde o primeiro grupo dos discípulos e até dos Apóstolos. Hoje, como no princípio, sempre haverá entre nós Judas Iscariotes, prontos a trair o Mestre por causa dos seus interesses mais mesquinhos e egoístas, mas não tomemos alguns pelo todo!

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