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Quando a vocação consagrada é exercida num cargo de gestão na indústria

Foto © Leonor Nunes
Foto © Leonor Nunes

“Não é sobre mim a atenção que quero chamar, mas sobre Aquele que dá sentido à minha vida”

Chamemos-lhe «Ana», uma vez que a sua identidade é pedida para ser mantida no anonimato por razões de carisma. Licenciada em Química, tem 41 anos e é natural de Montemor-o-Novo, mas viveu sempre em Setúbal enquanto esteve na casa dos pais. Seguiu os estudos na Faculdade de Ciências em Lisboa e trabalha desde o ano 2000 numa empresa da área da construção civil, tendo vindo para o Algarve no início de 2014 exercer funções ligadas ao controlo de qualidade e à proteção ambiental. É nesse ambiente profissional que exerce a sua vocação de especial consagração como religiosa. Texto por Samuel Mendonça e foto por Leonor Nunes

As Filhas do Coração de Maria são religiosas mas não se podem designar por irmãs.

Somos uma congregação religiosa de direito pontifício. O facto de não nos tratarmos por irmãs tem a ver com a nossa origem, em plena Revolução Francesa. Designar alguém como irmã é associá-la diretamente à vida consagrada e religiosa, o que não é facilitador em todos os meios e onde, para sermos «fermento» na «massa», é mais adequado permanecer na discrição.

Porque denunciaria logo que são religiosas?

Sim.

Mas há algumas de vós que não vivem a vocação no anonimato.

Depende dos meios para onde somos enviadas em missão.

“damos aulas no ensino oficial [francês] porque algumas de nós não são conhecidas como religiosas

Por que é que difere de meio para meio?

Importa, então, começarmos pelo princípio. Estamos em 1789, a começar a Revolução Francesa, e até esta época não há congregações femininas de vida apostólica. Ou seja, toda a vida religiosa feminina é conventual e contemplativa. Adelaide de Cicé, a nossa fundadora, uma mulher bretã da aristocracia, sonha e deseja consagrar-se inteiramente a Deus mas ir ao encontro dos mais pobres, estando ao seu serviço, não isoladamente mas com outras, atendendo às necessidades da Igreja e do mundo. Ela começa a ser acompanhada por um padre jesuíta [Pedro de Clorivière] – a nossa espiritualidade inaciana vem daí – e, uns meses mais tarde, é declarada a proibição dos votos religiosos, são extintas as ordens religiosas e a vida conventual é interditada como atentado à dignidade dos direitos humanos.

É neste contexto que, com o projeto de Adelaide de Cicé, o padre Clorivière tem a inspiração ousada de fundar uma congregação religiosa que fosse compatível com o momento histórico, sem sinais exteriores visíveis e sem vida conventual, mas sim vida comunitária e guardando aquilo que é o essencial da vida consagrada: os votos, a mesma regra, a vida comunitária, enraizadas na pessoa de Jesus Cristo e sua missão.

Para ter uma ideia do alcance da Revolução Francesa: até hoje, mais de dois séculos depois, os religiosos ainda não podem dar aulas no ensino oficial francês. Nós damos aulas no ensino oficial porque algumas de nós não são conhecidas como religiosas.

Portanto, também não usam hábito religioso.

Não podíamos usar hábito religioso, nem nada que nos distinguisse exteriormente.  

“Nunca pensei consagrar a minha vida a Deus, mas surgiu no decorrer da minha história

Como é que surgiu a ideia de consagrar a sua vida a Deus como FCM?

É uma história de amor. Nunca pensei consagrar a minha vida a Deus, mas surgiu no decorrer da minha história. Nasci numa família de raiz cristã, faço o percurso clássico de catequese desde a escola primária.

Fazia férias no Algarve, na zona de Vilamoura, e comecei a sair à noite aos 13 anos, se calhar um pouco mais precocemente do que é suposto. Saía com o meu irmão mais velho e com amigos. Tive uma vida absolutamente normal, como qualquer jovem da minha idade.

Antes de fazer o crisma percebi que era um passo importante na Igreja receber aquele sacramento e quis responsabilizar-me: perceber as razões da minha fé e aprofundar a minha relação com Jesus. Achei que devia ser um passo assumido com maturidade. Faço o crisma com 16 anos e no ano seguinte vou para a universidade, em Lisboa, onde procurei dar continuidade ao grupo de jovens que tinha em Setúbal, bati à porta da paróquia do Campo Grande, espreitei também à «janela» do Opus Dei e fui procurando onde me identificava como cristã, tendo ficado a residir numa residência universitária em Lisboa que pertence às FCM. Nessa altura já namorava há quase dois anos e o único projeto de vida que conhecia à minha volta era o de casar, ter filhos e um emprego.

“Tinha tudo para ser feliz, no entanto, comecei a experimentar um grande vazio na minha vida

Era isso que projetava?

Era isso que achava que deveria procurar porque era o projeto de vida que conhecia à minha volta … Em princípio seria uma coisa boa: era um homem muito bom e seria um ótimo pai dos meus filhos. Tinha tudo para ser feliz, no entanto, comecei a experimentar um grande vazio na minha vida. E é neste momento, em que estou a acabar o meu curso em Lisboa, que me questiono: «porquê este vazio se tenho tudo para ser feliz? O que é que falta aqui?». No meio desta tristeza, uma FCM, que era a diretora da residência na altura, ofereceu-se para conversar comigo. Aceitei, agradeci e acolhi uma proposta de exercícios espirituais que é a pedagogia de Santo Inácio para um retiro, organizados pelo CUPAV. E nestes três dias apenas, em 1996, faço uma experiência de encontro pessoal com a pessoa de Jesus que me marcou tão profundamente que percebi onde é que o meu coração se sentia encontrado.

E os 10 anos de catequese não serviram para descobrir esse Jesus?

Não. Desta forma, não. E depois pedi mais ajuda porque me senti profundamente encantada com esta forma de viver a minha vida quotidiana com este estilo de oração. Descobri que as FCM têm uma oração que as sustenta na sua vida quotidiana e percebi o meu desejo de me consagrar à pessoa de Jesus nesta forma concreta de vida apostólica e religiosa. Assim, o meu primeiro projeto de constituir família tinha que terminar.

Mas foi a partir da oração que descobriu essa diferença em relação ao Jesus que lhe tinha sido apresentado durante 10 anos? O que é que houve de diferente durante esses dias?

Na minha catequese houve uma introdução, teórica, ao conhecimento da pessoa de Jesus. Pôr a pessoa em contacto com Jesus numa relação não é uma coisa automática e para mim também não foi. A oração inaciana talvez tenha sido a forma que encontrei de me reconhecer cristã num contexto de oração e silêncio com a palavra de Deus. É uma forma de oração que me ajuda a viver a vida quotidiana, encontrando Deus em todas as coisas, e todas as coisas em Deus.

E, na SFCM, o método de oração que utilizam é o da oração inaciana?

Normalmente é a oração inaciana. Consiste em meditar um texto bíblico, contemplar a cena que se me apresenta, aplicar aí os sentidos, ouvir, ver, sentir, como se estivesse na cena… e deixar que esta Palavra ilumine a minha vida e a minha circunstância concreta atual.

Consegue identificar no seu percurso de discernimento vocacional acontecimentos ou experiências que a tivessem marcado?  

Primeiro fiz mini-exercícios e depois pedi para aprofundar mais este tipo de oração, na vida corrente, que realizei então durante cerca de três meses. Foram um marco central.

Fui à Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Paris, em 1997, integrada num contexto de estudantes universitárias e ficámos na casa geral das FCM. Eu estava em fase de discernimento da minha vida, e desejosa de que a minha consagração se fizesse também por este caminho, por isso foi muito importante conhecer outras FCM que vieram com jovens de outras partes do mundo. Foi uma experiência de encontro com uma comunidade FCM internacional.

Há outra experiência de oração inaciana também muito marcante nessas jornadas. Foi na igreja de Santo Inácio onde o cardeal Martini orientava um tempo de oração, que me marcou e desafiou muito fortemente para perceber que dons e que riquezas é que Deus tinha colocado em mim para eu pôr ao serviço dos outros.

Como é que a sua família acolheu a sua decisão de se consagrar?

Tenho uma ótima relação com os meus pais e com os meus dois irmãos e achei que eles mereciam que lhes contasse pessoalmente e não soubessem por outros. Um dia falei com eles individualmente e é curioso porque foram unânimes na confirmação que me deram ao dizer-me que me imaginavam com este estilo de vida. Deixaram-me muito livre para escolher o caminho que me fizesse mais feliz.

As FCM não têm apostolado específico. Podem, por isso, exercer a sua vocação de qualquer forma e em qualquer meio?

O que talvez nos carateriza neste aspeto é a disponibilidade e a procura na resposta às prioridades que se vão revelando; não ter obras específicas para estarmos disponíveis para o bem maior da Igreja e para um melhor serviço do reino [de Deus]. Isto permite que possamos estar disponíveis para uma profissão ou uma missão sempre a discernir, tendo em conta o maior bem da Igreja.

“Não faço votos perpétuos na empresa, faço, sim, a Deus

E é a atividade profissional que determina o período de tempo que ficam num determinado lugar?

Temos uma coisa muito importante entre nós que é o discernimento. Vamos percebendo que resposta é que podemos ir dando ao mundo e à Igreja em cada momento. O discernimento é qualquer coisa de central na nossa vida comunitária e apostólica e para podermos afinar e alterar a forma de estar em determinados locais. No fundo trata-se de sintonizar com o Espírito [Santo] para perceber o que é que ele nos pede em cada altura. A vinculação a uma empresa não implica que fiquemos para sempre na empresa. Não faço votos perpétuos na empresa, faço, sim, a Deus, nas FCM, que me envia no momento concreto a esta ou àquela missão.

Portanto, não é o meio profissional que determina o exercício da vossa vocação.

Não. O que define é o discernimento que fazemos para a missão apostólica.

E isso não leva a que se questionem, no meio profissional onde estão inseridas, quando resolvem sair por que é que o fazem?

Pode acontecer. Mas é como com as restantes pessoas que, por vezes, têm tantos motivos que as levam a abraçar outros trabalhos e novos projetos.

“A liderança é um serviço. Sou chamada a gerir uma equipa, faço-o através do diálogo

A sua área profissional é maioritariamente composta por homens e, no seu caso, tem-nos como seus subordinados. Como é que se consegue conciliar o exercício de liderança com a vivência religiosa no meio profissional? 

A liderança é um serviço. Sou chamada a gerir uma equipa, faço-o através do diálogo, através da busca de opiniões para tentarmos encontrar soluções, embora eles saibam que a figura de decisão é a minha. Há também respeito mútuo e confiança mútuos. Nunca tive nenhum problema com qualquer colaborador, ou colaboradora, porque também já trabalhei com equipas femininas. É uma graça e um serviço que procuro desempenhar com grande respeito por cada colaborador, que não é um número, mas uma pessoa.

“O nosso sentido comunitário é mais vasto do que viver sob o mesmo teto

A vida comunitária das FCM tem como particularidade permitir que residam na casa comum ou fora dela. Vive onde?

Estou a viver sozinha no Algarve, numa zona próxima do meu posto de trabalho.

O nosso sentido comunitário é mais vasto do que viver sob o mesmo teto, sempre em função da missão que nos é confiada. No entanto, há uma casa comum onde nos reunimos e nos encontramos. Na comunidade a que pertenço, que é em Lisboa, somos sete: três vivem na casa comum e quatro vivem fora.

A SFCM é uma congregação que permite aos seus membros viverem a sua vocação de forma muito mais enraizada no meio do mundo?

Sim, a nossa missão está muito enraizada no mundo, junto das pessoas. No fundo, o desejo original da nossa fundadora era puder estar no meio do mundo e que o nosso «claustro» fosse o mundo. O habitual na vida consagrada é que as pessoas saiam do mundo para se consagrar. Eu fui percebendo que, no meio do mundo, posso viver como consagrada, com esta forma de vida em concreto. É um ir até aos «claustros» do mundo.

Mas quem sai do mundo para se consagrar são mais as religiosas de clausura.

Não. Em todas as consagrações religiosas há uma saída, há uma consagração que é um pôr à parte para servir e nós estamos ao serviço de Deus, mas no meio do mundo.

O que aconteceu convosco foi o que acabou por acontecer algum tempo mais tarde com algumas das outras congregações, exceto as de clausura, que sentiram a necessidade de sair dos conventos para ir ao encontro do mundo.

Até ao século XVIII as que viviam uma vida conventual permaneceram ao serviço da Igreja desse modo, outras atualizaram o seu carisma, mas a partir daí nascem imensas congregações apostólicas femininas com uma presença forte no exterior, mantendo a vida comunitária conventual. Apostolicamente, fomos as primeiras a fazer essa opção mas com as caraterísticas que já referi.  

Com esse enraizamento no meio do mundo não há um risco maior de a vocação se diluir e perder identidade?

É uma pergunta muito pertinente… o que nos sustém e permite a nossa presença no meio do mundo sem correr o risco da diluição são os instrumentos que os nossos fundadores nos deixaram. Estes têm sido preciosos para darmos continuidade a este estilo de vida que tem mais de 200 anos de história e que continua a merecer a confiança da Igreja.

Para além de uma hora de oração diária, central na nossa vida, temos o exame de consciência. Trata-se de um breve tempo de oração no qual nos colocamos diante de Deus para reler o nosso dia e reconhecê-l’O nos acontecimentos vividos. Na nossa vida temos de ter momentos de pausa e de silêncio para que possamos reconhecer a presença de Deus em nós e perceber o que é que há a sintonizar e afinar, assim como um instrumento musical, para começarmos o dia seguinte abertas ao Espírito [Santo].

Outro instrumento importante é o encontro mensal e pessoal com a nossa superiora – o diálogo religioso – em que fazemos o ponto de situação: como é que estamos a viver a nossa vida de oração, de relação com os outros, a missão, as dificuldades, as alegrias, procuramos que o Espírito Santo nos ilumine, pois ninguém é «bom juiz em causa própria», e deixamo-nos ajudar, confirmar.

Os sacramentos da eucaristia e da reconciliação são centrais, pois a nossa vida é centrada em Cristo. As reuniões comunitárias quinzenais são também de grande importância na partilha da oração e da vida.

“Procuro ser sinal de esperança, de alegria. Há muita falta do sentido para a vida no meio do mundo

E no trabalho nunca ninguém se interrogou sobre a qualidade da sua presença?

Para as pessoas fora deste contexto da Igreja, a vida religiosa é algo distante. Sabem que sou cristã e que pertenço à Igreja. Procuro ser sinal de esperança, de alegria. Há muita falta do sentido para a vida no meio do mundo.

Esse é também o papel dos leigos.

Com certeza. Não estamos aqui a roubar espaço a ninguém [risos]. A grande diferença é a nossa consagração total a Deus…

…que difere da vocação laical.

Sim. São formas que se complementam, mas talvez possamos distingui-las pela radicalidade que a vida consagrada supõe. Há leigos comprometidos no local de trabalho. Ao conversarmos um bocadinho percebemos que há pessoas também comprometidas.

Com a Igreja?

Sim.

“Se acontecer que uma pessoa venha a saber que sou consagrada, se calhar é uma maneira de ela descobrir mais da Igreja

E não sabem que é religiosa?

Não, porque não é comum a vida consagrada estar nestes meios. E chamar a atenção sobre mim seria caricaturar e distrair. Não é sobre mim a atenção que quero chamar, mas sobre Aquele que dá sentido à minha vida. Assim como o coração de Maria está centrado em Deus, assim desejo que o meu coração esteja sempre centrado em Cristo e eu possa ser, no meio do mundo, um instrumento discreto da presença de Deus, como Ele também é discreto. Deus não se impõe e respeita a liberdade de cada pessoa.

No entanto, se me confrontarem, não vou mentir. Se acontecer que uma pessoa venha a saber que sou consagrada, se calhar é uma maneira de ela descobrir mais da Igreja, que a Igreja não é um «papão», que vida religiosa não é uma coisa esquisita e que as religiosas não são pessoas extraterrestres. São pessoas concretas, com defeitos, com limites e que, ainda assim, aceitam ser instrumentos de Deus. Para nós, o grande desafio é esta qualidade da presença junto das pessoas e que pode abrir a uma conversa, a outro sentido de mais vida…

Como é que vê a atual diminuição do número de vocações de especial consagração, o consequente encerramento de muitas casas religiosas e o desaparecimento de carismas religiosos de determinadas zonas em virtude da gestão feita por causa desta realidade?

Vejo como um sinal do tempo: há menos natalidade, há menos vocações.

Depois de 1997, quando entrei na SFCM, entraram mais sete pessoas. Temos feito reajustes, somos atualmente cerca de 40 em Portugal e as FCM estão presentes em 33 países. Por um lado, há menos jovens, mas também há vocações mais tardias que eu considero mais amadurecidas. Porquê? Porque o mundo, se calhar, ilude com a ideia de que a liberdade é um bem tão precioso que é preciso conservar e a pessoa não percebe que se se comprometer continua a ter toda a liberdade.

“Não há tempo para Deus, que chama sempre

Esse é o retrato da sua experiência.

Eu entrei com vinte e poucos anos, mas há pessoas que entram mais tarde, já com grande experiência profissional e de vida. Sabem o que procuram. Há um monge copta que diz: «Deus chama sempre e cada flor tem a sua estação». Não há tempo para Deus, que chama sempre, e as pessoas encontram-se com este desafio e com esta decisão mais tarde na sua vida.

Que mensagem gostaria de deixar a alguém que se sinta interpelado a seguir também pelo caminho da vida consagrada?

Que a experiência do encontro com a pessoa de Jesus é das experiências mais libertadoras que alguma vez experimentei e que a consagração a Ele é um projeto de vida de realização humana, pessoal e espiritual.

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